O Conto – I. Eles darão sempre uma história e a história será sempre acerca dele.


Quando ela o viu nada denunciou a paixão que se aproximava. Foi um encontro frio, distante e resistente. Ela altiva e arrogante ele sério e profissional. À primeira vista ela achara-o sensual mas à primeira palavra as suas expressões gélidas criaram um muro entre eles. Não existia nada para além de um fosso entre eles cuja única ponte era a profissional. Colegas e co-criadores de um importante projecto cujo planeado sucesso os iria levar juntos mais além sem saberem, ela e ele, a verdadeira dimensão do mundo que acabaram de pisar.

A interacção começou com cortesia e respeito mútuo e nunca se haviam olhado daquela forma, quando o mundo parou e o respirar foi tão ofegante que parecia que a todo o planeta faltava oxigénio pois fora consumido inteiramente por aquelas duas criaturas.

Certa noite na festa de apresentação do projecto ela sentiu algo que, achava ela, nunca tinha sentido, quando chamou o seu nome a sua pele enrijeceu e um calor gelado percorreu cada célula – “Miguel” – e sentiu uma vontade inevitável de o agarrar com toda as forças que os seus músculos podiam. A noite tem um perfume insistentemente empresarial, as cigarrilhas, conversas e risos coloquiais, copos e copos e a comida é deliciosamente japonesa.

Ela estranhou aquela sensação e quando ele se chegou perto ela tinha aquele olhar perturbado de alguém que descobre um segredo perturbador, ela desejava-o nas profundezas do seu ser. E sorriu. Tocou-lhe na mão e baixou o tom da sua voz para um som grave, fazendo lembrar um felino a instigar o seu adversário – “vem comigo” – disse ela e Miguel obedeceu sentindo o puxão de um fio suficientemente forte para facilmente enforcar um homem.

Ao fundo fazem-se os discursos e ouvem-se as palmas e enquanto subiam as escadas para o terraço um medo irracional assolou a sua alma:

“E se ele não sentir também?”

Até agora ela tinha assumido que o querer era mútuo mas como poderia saber? Alto e frio como gelo, aquele homem não se denunciou uma única vez e foi nesse instante que Daniela hesitou, no penúltimo degrau. Foi aí que sentiu que tudo está suspenso por um fio, que um fio bem esticado é capaz de cortar e é então que sente o peso do cortar das amarras a pairar sobre si, o medo da terrível e desastrosa queda mortal que poderá abruptamente se insurgir entre eles – e esse medo paralisa-a.

Mas ela não poderia estar mais enganada, já há algum tempo que ele adormecia atormentado com as fantasias que nunca poderia concretizar. Acordava assolado pela tortura que era pensar nela no primeiro instante que ganhava consciência. A sua tesão roçava os lençóis e tantas vezes imaginou Daniela a acordar a seu lado com os seus lábios a beijar apaixonadamente o seu pénis enquanto ele atingia um rápido orgasmo extasiado e ela sorria vitoriosa e orgulhosa. Miguel respirava fundo e tentava convencer-se que aquelas fantasias nunca seriam mais do isso mesmo: ilusões. No entanto havia uma euforia contida nesse sentimento de querer e não poder e por vezes questionava-se se não estaria a tornar-se viciado nele.

Ele reparou quando ela hesitou naquele último degrau que os levava até ao terraço de um edifício que era tão alto que quase tocava o céu. Quando ela o olhou por cima do ombro ele conseguiu perceber que havia dúvida no seu movimento. E de repente sentiu uma enorme onda que quase o fez corar, e perguntou-se a si mesmo o que seria aquela energia toda, mas rapidamente entendeu que no fundo já sabia a resposta. “Tu também” – disse ele – e no seu pénis tumescente sentiu o palpitar do seu coração. O sangue corria mais rápido que o próprio tempo e por isso parecia que o próprio tempo tinha deixado de existir e de fazer sentido. Naquele momento só existia aquele segundo que ficou suspenso no tempo e no espaço e nos seus próprios corpos: quando ela percebeu nos seus olhos de um castanho profundo que ele já a despira e já a amara tantas vezes quantas ela já se teria masturbado a pensar nele. E é quando ele sobe aquele penúltimo degrau e, o seu olhar encontra o dela, que a respiração se deixa de ouvir e fica no ar o consentimento, a expressão da vontade. Ela não o ama e ele desdenha a noção do amor à primeira vista, de amar alguém que não se conhece, algumas coisas têm de ser conquistadas. Mas ambos deliram com o sabor divinal desta euforia partilhada.

Ao ar livre sentem, naquela noite fria, que os seus corpos ardem por debaixo da pele, ele pode jurar que o rubor das faces de Daniela revelam o rubor dos lábios da vagina dela. Encosta-a contra a parede viril mas gentilmente e aproxima o seu nariz do pescoço dela e é então que respira fundo o aroma que a sua pele exala. Ela resiste-lhe colocando a mão entre si e Miguel em jeito de travar o seu avanço. Afinal ela é a leoa e quer tomar controlo da situação, mas a sua respiração pesada anuncia que não é defesa da sua parte: é um ataque. Os seus dedos apertam com tanta força a camisa de Miguel que lhe fazem doer os nós, beliscam-lhe a pele e por certo magoam-no. Ele arreganha os dentes em expressão de dor e ao mesmo tempo aceitando o seu desafio.

“Onde estiveste este tempo todo?” sussurra Daniela no ouvido dele. Ele fecha os olhos e, agarrando firmemente nos ombros dela, olha-a profundamente e responde “Aqui, sempre.”

Autor: Erika

Quem escreve: De nome: Erika. Tenta escrever o que mais lhe apetece. Tenta ser simpática. Quando não reclama, sugere. Sorri muito. Atribui significados importantes à musica, ás cores, cheiros, sabores, texturas. Teimosa, orgulhosa, ambiciosa q.b., não cria espectativas, cria objectivos. Gosta de dormir, é preguiçosa mas detesta preguiçar. Perde-se na internet. Perde-se naquele momento perfeito. Perde-se na fotografia. Perde-se nas pessoas. Perde-se na paixão. É apenas mais alguém que escreve.

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