Uma Música Que Alguém Me Deu – I


Naquele dia o J. veio me buscar.
Durante a travessia do Tejo o meu coração sofria arritmias agressivas.
Os seus beijos faziam-me saltar uma batida. O seu olhar acelerava-me os batimentos por segundo.
Por instantes o meu olhar fugia para o horizonte e fitava as margens do rio. Quando pensava na realidade o meu coração quase parava. Tínhamos construído uma ilusão em que ambos acreditavamos. Aquele mundo só existia se estivéssemos juntos e quando estávamos tudo ameaçava implodir sobre os nossos peitos. Julgava eu que já tinha conhecido a Paixão. Estava eu tão enganada. Ao subirmos a colina de carro, na minha garganta formava-se um nó. O início do fim. Cada começo significava mais um adeus. Porque não éramos um do outro, na verdade, faltava a realidade. Na nossa fantasia, seríamos eternamente apaixonados, juntos à luz do dia. Por mais que o sol brilhasse crescíamos nas sombras – aquele sentimento temia a luz. E a nossa ilusão protegia a Paixão, dava-lhe resguardo, como uma gruta aos seus morcegos. A música tocou na rádio e J. aumentou o volume:
“É a nossa.”
Ouvi sem desviar o olhar para ele. A ansiedade calou-me a voz.
Aquela música que tocou no dia em que nos conhecemos e soubemos, logo aí, no primeiro olhar, que estávamos condenados. Tínhamos encontrado juntos um problema. Um impasse. Um desvio que nos levou ao êxtase. A um beijo secreto numa praia da Costa da Caparica em noite de lua cheia.
Uma encruzilhada. Um “e agora?”.
E agora? Era o que queria perguntar. No entanto olhei para ele respirei fundo e sorri. Suspirei, deixei-me levar e disse-lhe “Tive saudades tuas”. Senti o mundo parar. A música ficou para sempre nossa. A paixão também.

Autor: Erika

Quem escreve: De nome: Erika. Tenta escrever o que mais lhe apetece. Tenta ser simpática. Quando não reclama, sugere. Sorri muito. Atribui significados importantes à musica, ás cores, cheiros, sabores, texturas. Teimosa, orgulhosa, ambiciosa q.b., não cria espectativas, cria objectivos. Gosta de dormir, é preguiçosa mas detesta preguiçar. Perde-se na internet. Perde-se naquele momento perfeito. Perde-se na fotografia. Perde-se nas pessoas. Perde-se na paixão. É apenas mais alguém que escreve.

Um pensamento em “Uma Música Que Alguém Me Deu – I”

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