Orçamento Emocional


Late Goodbye by =WojciechDziadosz

Não me consigo habituar às despedidas.
O ser humano tem aquela capacidade formidável formar um hábito ou um padrão de acontecimentos repetitivos. As primeiras vezes que acontecem são mais estranhas, difíceis  complicadas mas à medida que o cenário se repete vamos construindo e automatizando a nossa resposta modificando a excepção que passa a ser a regra. Mas não no que toca às despedidas. As despedidas para mim são o oposto e tornam-se exponencialmente mais difíceis.

A primeira vez que me despedi de uma grande amiga que ia sair do país porque não encontrava em Portugal uma oportunidade de crescer fiquei triste mas ao mesmo tempo estava feliz por ela, é claro. Dessa vez foi diferente, porque a sensação de felicidade,orgulho e positivismo se sobrepôs à tristeza de perder a presença habitual dessa pessoa na minha vida. A tecnologia contorna muitos problemas mas não resolve o essencial,o contacto e partilha directos.
E depois aconteceu outra vez e desta vez não era já para ali para Inglaterra, desta vez estava a “perder” uma parte essencial da minha vida para um fuso horário com 8 horas de diferença. E desta vez foi diferente, foi mais doloroso. Porque desta vez para além de tristeza senti revolta. Revolta com a actual conjuntura. Porque uma coisa é afectar o ordenado, o emprego, aquilo que já não podemos comprar, aquilo que já não podemos fazer, enfim, tudo isso é adaptável – se é que se pode colocar nesses termos – mas outra coisa, muito mais profunda para mim, é deliberadamente afectar as relações. Perder pessoas que nos são queridas para a crise é uma realidade que nunca tinha enfrentado ou sequer equacionado. A crise que interfere com as nossas relações. Já não basta a crise económica e a crise de valores que enfrentamos… Tenho de aprender a lidar e a fazer coping com esta crise emocional. E então esta despedida e as seguintes foram muito mais dolorosas. Saber que estas pessoas se vêm obrigadas a sair do país, afastarem-se do seu lugar, das suas pessoas por sentirem que não têm outra escolha,por sentirem que não têm outro futuro. Que esgotaram as suas possibilidades. Têm de sacrificar o seu orçamento emocional em prol de uma outra perspectiva. E tenho orgulho e admiração por o fazerem, porque é preciso ser-se determinado e corajoso para sair do conforto e tentar sem saber se vai conseguir. Não me interpretem mal enquanto a isso.
Mas esse sentimento de revolta potencia a tristeza que sinto a cada despedida. Sei que a razão está correta mas os motivos são errados e injustos.

É injusto termos de abdicar das nossas pessoas, das nossas relações porque não temos outra saída. Porque nos sentimos encurralados.
E a cada despedida é pior. E por mais que experiencie não me consigo habituar. Não as consigo transformar em regra. Não consigo leva-las com mais leveza. Não consigo não chorar. Não consigo não deixar de sentir esta dor, esta contracção do orçamento emocional.

Autor: Erika

Quem escreve: De nome: Erika. Tenta escrever o que mais lhe apetece. Tenta ser simpática. Quando não reclama, sugere. Sorri muito. Atribui significados importantes à musica, ás cores, cheiros, sabores, texturas. Teimosa, orgulhosa, ambiciosa q.b., não cria espectativas, cria objectivos. Gosta de dormir, é preguiçosa mas detesta preguiçar. Perde-se na internet. Perde-se naquele momento perfeito. Perde-se na fotografia. Perde-se nas pessoas. Perde-se na paixão. É apenas mais alguém que escreve.

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