(des)Empatia


Detachment

Não consigo compreender este momento em que vivemos.
Este momento em que cada pessoa é uma ilha, a falsa percepção de que estamos cada vez mais ligados, mais conectados, mais perto.
A verdade não poderia estar mais longe desse conceito.
Hoje, neste momento, as relações são efémeras, cheias de cobranças, vazias de sentido.
Há um desprendimento, um descompromisso, uma incapacidade de empatizar.
Empatizar é algo muito importante que só o ser humano consegue fazer.
A definição do diccionário diz que empatia é uma “forma de identificação intelectual ou afectiva de um sujeito com uma pessoa, uma ideia ou uma coisa”, ou seja, é a capacidade de reconhecer algo e de nos conseguirmos colocar “nos sapatos da outra pessoa”. Compreender como ela se poderá sentir numa determinada situação, em determinado contexto.

A empatia também faz com que consigamos compreender, e até prever, o impacto e as consequências das nossas próprias acções em relação a outra pessoa. Por vezes até nos é possível prever a reacção, quando conhecemos razoavelmente essa pessoa.
No entanto, eu penso que, ao perdermos esta capacidade de empatizar, perde-se todo o resto. Como um comboio a descarrilar, quando a carruagem da empatia pelo ser humano sai das linhas todas as outras que lhe seguem caem num desastroso aparato.
E aqui o desastre é mesmo perder completa e totalmente a capacidade de respeitar, relacionar e ajudar o outro.
É este momento que estamos.
A total e completa desconexão de nós mesmos. A total e completa desconexão pelo próximo.
Penso até que é possível chegar ao extremo de perder a capacidade de amar. Torna-mo-nos inócuos, vazios de emoções, estéreis. Abrimos espaço para a crueldade, a malícia, a indiferença, a intolerância – pois pensamos apenas no nosso EU. O nosso EGO domina sobre tudo, sobre todos. Infinitamente egoísta.

Até me dá arrepios.
Hoje em dia as pessoas já não medem as palavras. Já não pensam duas vezes antes envenenar as palavras com crueldade.
Não pensam no impacto que certas coisas ditas podem ter nos outros. Lá está…
Já não existe compromisso, lealdade, verdade, noções tão básicas de civismo e co-habitação, moral, valores.
É um “cada um por si”, é a Lei da Selva.

Assusta-me verdadeiramente o futuro a partir deste momento.
Começo a sentir um certo nível de desprendimento. E sinto que tenho (todos temos) esta capacidade de amar (existem muitos tipos de amor, não falo apenas do amor romântico), temos esta capacidade de sermos mais, fazermos mais, conectarmo-nos mais, ajudar (ajudar não significa erradicar a fome do mundo), fazer a diferença no nosso pequeno mundo, nas pessoas em quem tocamos, pequenos gestos que valem por muito. A capacidade de fazer o que for preciso, estar presente.
A capacidade de prever o impacto das nossas acções nas pessoas que nos rodeia, no mundo onde contactamos, é tão essencial para a sobrevivência das conexões interpessoais, das relações pessoais! A empatia é uma pedra basilar do ser humano e está a morrer. A desconexão emocional cresce como um vírus.

Para onde vamos a partir daqui?
Será que queremos apenas ser alguém desprovido de emoções cujo único impacto que deixa neste espaço, neste tempo, nestas pessoas, é negativo? Sem sequer nos importarmos com isso? E continuamos como se nada fosse?

Desligar é uma escolha, mas lutarei sempre com todas as minhas energias para que NUNCA seja a minha.

Nota: a imagem que ilustra este post pertence ao cartaz do filme Detachment. Este filme de certo modo retrata como de uma forma ou outra na nossa “rede” mais próxima estamos interligados e interrelacionados e muitas das vezes não percebemos nem nos apercebemos dessas conexões. Estamos desligados NA rede. As nossas acções continuam a ter impacto nos outros nós é que deixamos de ver e muitas vezes até mesmo de nos importar. Um filme que vale a pena ver.

 

Autor: Erika

Quem escreve: De nome: Erika. Tenta escrever o que mais lhe apetece. Tenta ser simpática. Quando não reclama, sugere. Sorri muito. Atribui significados importantes à musica, ás cores, cheiros, sabores, texturas. Teimosa, orgulhosa, ambiciosa q.b., não cria espectativas, cria objectivos. Gosta de dormir, é preguiçosa mas detesta preguiçar. Perde-se na internet. Perde-se naquele momento perfeito. Perde-se na fotografia. Perde-se nas pessoas. Perde-se na paixão. É apenas mais alguém que escreve.

4 opiniões sobre “(des)Empatia”

  1. Olá Erika.
    Não sei se ainda te lembras de mim… O mais certo é já não te lembrares (afinal já lá vão 4 anos desde que o Blogovitor entrou em fase catatónica), mas estou de volta!
    Apraz-me constatar que continuas igual a ti mesma e podes crer que o Livro de Reclamações vai voltar a fazer parte do meu rol de visitas “bloguistas”!
    Boas escritas

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