Foto postal: Alentejo


Quando se fala em Alentejo é esta imagem que vem à cabeça planícies salpicadas por pequenos montes revestidos de um dourado quente, um prato de migas de espargos e bom vinho. Mas se nos dermos ao trabalho de descobrir o Alentejo pode ser muito mais. Os poucos dias que tenho o privilégio de lá passar são preenchidos por muito silêncio, pasmaceira (que não é necessariamente mau) boa comida e algumas sestas extra. Como tenho aversão ao calor, a altura que mais gosto de visitar é na Primavera, os campos estão verdejantes, há sempre uma neblina mágica ao amanhecer e a temperatura convida a explorar. No Verão entro em modo hibernação e só me atrevo a sair no lusco-fusco. Com internet e tv fora da equação, estes dias permitem-me viver o tempo sem distrações e como sabe bem libertar a mente!

Acho que hoje em dia é cada vez mais difícil libertar-mo-nos das distrações fáceis, que nos levam a estar sempre a procurar o que fazer no próximo minuto (e no depois e a seguir) e que inevitavelmente nos leva a ficar ansiosos e a não saber o que fazer connosco mesmos quando estamos sozinhos.

Hoje em dia estar sozinho é motivo para uma ansiedade desmedida, há um medo da solidão que nos é instilado desde cedo. Como se estar sozinho fosse uma doença terminal que só podemos evitar se ocuparmos cada minuto da nossa existência com todo o tipo de actividades, seja trabalho, horas no ginásio, horas de netflix, horas de youtube, horas de mindless browsing até dormir, voltar a acordar e repetir. Procuramos qualquer coisa que prencha os espaços, os vazios e que nos impeça de estar connosco mesmos.

Há tempo para tudo. Viver no presente ou viver intensamente não tem de ser sinónimo de estar sempre all over the place. Há que reservar algum tempo para para parar, para me centrar, para me escutar, para aprender a estar comigo. Não nos podemos evitar a nós mesmos para sempre (ou não devemos) pois chegará um dia que deixamos de reconhecer a nossa própria voz. Deixamos de saber quem somos se não estivermos com outros ou com o cérebro sempre a computar, e aí começamos a sentir o peso da solidão. Sim porque estar sozinho ou sentir-se só são coisas bem diferentes e que se podem tornar sufocantes quando o não saber estar sozinho se conjuga com sentir que ninguém se importa.

Portanto para mim estes momentos de pasmaceira, de fazer nada e escutar os meus pensamentos ajudam-me a centrar e a encontrar. Para que depois tenha a energia e força necessária para poder investir o meu tempo com as outras pessoas, no trabalho e nas distrações fáceis.

E isso é o que mais gosto quando visito o Alentejo. As distrações são forçosamente retiradas da equação. Fico só eu. Ficas só tu. E reaprendemos ou relembramos o privilégio que é sermos nós.

Autor: Erika

Quem escreve: De nome: Erika. Tenta escrever o que mais lhe apetece. Tenta ser simpática. Quando não reclama, sugere. Sorri muito. Atribui significados importantes à musica, ás cores, cheiros, sabores, texturas. Teimosa, orgulhosa, ambiciosa q.b., não cria espectativas, cria objectivos. Gosta de dormir, é preguiçosa mas detesta preguiçar. Perde-se na internet. Perde-se naquele momento perfeito. Perde-se na fotografia. Perde-se nas pessoas. Perde-se na paixão. É apenas mais alguém que escreve.

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