Uma Senhora Chamada Liberdade

Isabelle passara a maior parte da sua vida vagueando sozinha pelas ruas do norte de Paris. A sua mãe trabalhava num cabaret perto da Place Pigalle e até certo tempo tinha a esperança de poder ver a sua filha crescer longe dali, o que não aconteceu. Isabelle ficara por sua conta e acabou por trabalhar num bar nos arredores. Cedo, Isabelle, uma jovem bela de pele clara e cheia de luz, cabelos suaves e ondulados, olhos doces de um verde profundo, caiu na mancha negra que envolvia o submundo existente em Pigalle.

Fréderic-Auguste Bartholdi, escultor, passeava pela cidade envolto nos seus pensamentos. O seu projecto estava cada vez mais perto de ser tornar realidade. Após todas as dificuldades Bartholdi começara a trazer para a vida uma ideia lançada um dia num circulo de intelectuais progressistas, a grande oferta ao Novo Mundo do Velho Continente. Uma grande estátua que representaria o triunfo da Liberdade.

Vencida a difícil luta face às dificuldades financeiras, ideológicas, politicas e diplomáticas havia que ultrapassar os novos obstáculos, não menos difíceis, relacionados com a concepção. De que material tal gigantesco monumento deveria ser feito? Quais as técnicas a utilizar e os custos envolvidos? Nisto Bartholdi tropeça numa sombra que passara por ele. Desviou o olhar dizendo “Desculpe Mademoiselle!” e viu nos seus pequenos olhos um clarão de luz.

“Desculpe senhor, não era minha intenção!”

“Não peça desculpa menina, a culpa foi claramente minha. Perdoe-me a minha distracção” – respondeu encantado. “Será demasiado inconveniente perguntar-lhe o seu nome?”

“Tal questão é simplesmente inexistente onde cresci. Sou apenas mais um corpo, mais uma sombra.” Aquela rapariga fê-lo esquecer por instantes toda a azáfama que havia nos seus pensamentos. Isabelle sentia-se inexplicavelmente segura perto daquele homem. Até ali não sabia o que era existir verdadeiramente junto de alguém.

O escultor, impulsivo, quis leva-la à sua oficina no número 25 da Rue Chazelles. Ela seguiu-o, um pouco relutante. “O que me poderá acontecer, que já não tenha visto ou experienciado?” – Pensou para si mesma.

Quando entraram juntos, Isabelle não tinha olhos para o que se passava naquela oficina, pedaços inteiros daquilo que seria uma estátua enorme jaziam construídos por todo aquele espaço. “O que é?” – Perguntou.

“Um presente de Liberdade.” – Respondeu Bartholdi fascinado com a imensa beleza da rapariga.

“Liberdade. Algo que nunca conheci, e talvez não conhecerei. “

“Não te resignes à sombra que não és, minha bela. Em ti só vejo luz. Existe todo um mundo de Liberdade, tu és a única que te acorrenta a ti mesma. Apenas tu tens a liberdade de te libertar.”

Bartholdi e Isabelle beijaram-se e fizeram amor naquele que seria o “coração” da estátua. O rosto por definir acabaria por ser um rosto nobremente maduro impregnado de confiança e ao mesmo tempo de melancolia, tal como ele vira o rosto iluminado de Isabelle naquela noite.

A 21 de Maio de 1885 Bartholdi levou Isabelle consigo a bordo do Isére a caminho do novo Mundo, juntamente com 300 caixas, cada uma delas contendo um fragmento da estátua colossal que iria ser montada em Bedloe’s Island – Nova Iorque. A 17 de Junho o navio entra na baía de Nova Iorque. No desembarque Bartholdi olha ternamente para a sua menina e diz apaixonadamente: “És livre. Sê feliz.”

Isabelle recorda, anos mais tarde, a chegada àquele local, ao recomeço de uma vida. Ela e Bartholdi não ficaram juntos, mas relembra carinhosamente o homem que a ensinou a encontrar a luz de entre todas as sombras, a liberdade, a efemeridade da paixão e a eternidade de uma doce memória. Olha de longe, aquele que é o seu rosto num dos mais fortes e resistentes símbolos do triunfo da Liberdade e do Amor.

«Guardai, antigas terras, os faustos da vossa história», grita com silentes lábios. «Dai-me os que estão exaustos, os pobres, as multidões oprimidas que anseiam respirar livres, as miseráveis sobras das vossas costas fervilhantes; dai-me quem não tem casa, quem a tempestade precipitou, eu ergo o meu archote ao lado da porta de ouro!»

A Primeira Vez na Costa da Caparica.

Daniela seguia caminho para a estação do Oriente no Alfa-pendular que partira de Faro às 6.55. Não conseguia dar lugar ao sono que ainda rondava o corpo dela pois os nervos tomavam conta de si a cada quilómetro percorrido. Não era a primeira vez que fazia esta viagem. Quando finalmente saia daquele comboio, continuava a sentir-se em casa, talvez mais ainda do que quando estava efectivamente em casa.
Chegando á estação olhou em volta e encontrou-a, Laura, a sua grande amiga já a esperava. Abraçaram-se e sorriram.

“A que horas combinaste?” perguntou Laura.
“Ás 14, assim dá-lhe tempo para chegar aqui da margem sul”

Daniela iria conhecer João.
Encontrou-o sem querer numa noite de insónia numa chat-room. Nunca fora hábito dela frequentar tais sitios na internet, mas por impulso começou conversa com alguém escolhido completamente ao acaso. A conversa evoluiu até trocarem e-mails pessoais e depois números de telefone. Ligavam um para o outro, todos os dias, conversavam sobre tudo! Sobre os problemas desse dia, as divergências com os namorados. Trocavam gargalhadas sobre assuntos sem nenhum significado. Descobriram entre si vários pontos em comum, demasiadas coincidências. Trocaram um ano de conversas sem nunca perceberem o mais óbvio, completavam-se. Todos os dias ansiavam voz um do outro, todos os dias faziam parte um do outro cada vez mais.

“Preciso de ter ver” Disse João naquela noite.
A hipótese de estarem juntos fisicamente nunca tinha sido pensada!

E ali estava ela finalmente mais perto. Nessa manhã parecia que as horas se arrastavam e a ansiedade aumentava de um modo que a sufocava!
Ele ligou-lhe: “Onde estás? “Estou de costas para a entrada principal. Tu?” “Acabei de entrar, espera, já te vi”.
Quando se voltou para a porta viu um rapaz alto e elegante, com olhos de um azul profundo e doce. Ele abraçou-a e disse-lhe ao ouvido “Olá pequenina!” Ela riu-se e ficaram abraçados o que pareceu uma eternidade.
“Vens comigo?” perguntou. Ela iria sem medo.

Percorreram todo o caminho até á Costa da Caparica quase em silêncio. Parecia que havia medo de falar mas não era isso. Todas as palavras já haviam sido ditas, queriam aproveitar todos os silêncios presentes, cada toque, som ou cheiro. “És mesmo tímida!” disse João em tom de brincadeira! “Já te tinha dito que sim! Tu é que não querias acreditar!” Chegaram a um dos sítios favoritos de João, a praia da Fonte da Telha.
Sentaram-se num pequeno muro de cimento a contemplar o mar e o horizonte. Ele fixou o olhar nela e Daniela tremeu. Beijaram-se. Esse momento ficou intensamente gravado na alma de ambos.
“Não pude resistir.”

Seria a primeira vez que Daniela visitava a Costa da Caparica e a primeira vez que sentiu aquela paixão imensa dentro de si. Ficaram em silêncio simplesmente a conhecer tudo o que os seus corpos lhes diziam.
Não haviam espaço para mais palavras naquela tarde.

As Histórias das Estrelas

Sentado na calçada
olhando o céu estrelado
estava um Pequeno Petiz
deveras concentrado.

Sentado na calçada
chamou-me à atenção,
perguntei-lhe – Pequeno Petiz,
Porque tanto olhas o céu?

O menino desconfiado
olhou para mim suspeitoso.
Sorriu e voltou a contemplar
o firmamento sumptuoso.

Silêncio! Sussurra o Petiz
Não incomodemos as estrelas!
Elas gostam de quietude,
para a sua história contar!
E olha que é de difícil enredo,
é preciso atentar.

É sobre um Leão e um Rato,
amizade e coragem.
Tem homens e angústia,
tem também uma viagem.
Elas tomam muitas formas,
para poderem representar.
Se olhares com atenção conseguirás enxergar!

Sentado na calçada
Olhei o firmamento.
Mas que bela história! Retorqui.
Vou ficar bastante atento!

Estrela

Estrela era uma mulher que nada tinha a ver com o seu nome (ou os significados que lhe atribuem). Pouco ou nada tinha de luz interior, era opaca não deixava transparecer nada de radiante. Emocionalmente pobre, expelia negatividade por todos os poros.
Era carrancuda, nada a fazia sorrir. Aquilo que mais detestava eram as piadas ou piropos que faziam á custa do seu nome.
Um dia , acompanhada por alguém, pelo caminho tropeçou e caiu.
“Olha uma Estrela Cadente!”
Todos riram e seguiram, Estrela ali ficou.

Cinzento Prateado

Um clarão cinzento prateado, foi a última coisa que vi.
Quando acordo dou por mim num quarto claro de sons compassados. Tit-tit! Fazem as máquinas a seu ritmo ou será a meu ritmo? Pois elas tilintam ao som do meu coração que bate calmamente, mas só por agora.

Quando finalmente caio em mim tenho a sensação de que tudo gira freneticamente! Tit-tit-tit! Fazem as máquinas num ritmo descompassado!
Estou em pânico mas sinto-me como se visse a cena fora de mim. Como se me estivesse a ver a mim mesma.

Quem é esta pessoa assustada deitada nesta cama? Com tubos de cores e sem cores que entram pelo corpo a dentro, que a invade paralizando sons e movimentos, que a ligam a estas máquinas cinzento prateadas que apitam em vários tons, vários compassos, várias cores.

Cinzento prateado.

E de repente o meu corpo agarra a minha alma e entro dentro de mim, um vácuo, um silêncio.

Tit-tit-tit-tit!

Recordo. A minha última memória arrasta-me para uma piscina de medo e de dor. Começo a chorar, a querer fugir. Chega alguém! Uma mulher de olhar gentil e bata branca. Ela segura-me e olha dentro de mim – “Vai ficar tudo bem, aqui estás segura e protegida, ninguém te poderá magoar mais!” Senti-me mais calma.
As lágrimas de dor continuam a cair na minha face enquanto revivo na minha mente o filme de terror que me levou ali aquela cama. Frame a frame sentia cada golpe, cada puxão. Vejo uma janela, olho em volta assustada com os olhos enevoados das lágrimas. Grito um último por favor e a última coisa que vejo é um carro cinzento prateado.
“Foi um milagre!” – diz a doce voz daquela mulher que me salvou a vida – “Mas estás aqui e com ajuda e força podes recomeçar”.

Será que é possível?

Coffee-shop

“A rua outrora movimentada está quieta. Não se ouve o ruído incansável dos motores, dos passos apressados, o som que faz parecer que a cidade tem vida. Silenciosa a cidade vibra em si e eu sinto-a debaixo dos meus pés enquanto caminho envolvida no meu pensamento. Passo pela coffee-shop que me faz parar, olhar pela montra e respirar fundo enquanto sinto o aroma profundo de café. Sempre quis entrar e envolver-me naquele ambiente de cheiros e sabores mas nunca o fiz, não sei porquê.

Naquele dia entrei decidida, sentei-me junto à montra para poder ver a neve cair. O capuccino estava quente mas eu não tinha pressa, estava a apreciar o dia. Perdi-me a olhar a vida lá fora quando sinto um vulto desconhecido sentar-se à minha frente.

“Hoje a cidade está excepcionalmente branca.” Disse o estranho.

“Provavelmente será da neve!” Respondi em tom defensivo.

“Provavelmente! Mas o cinzento dos blocos de cimento amontoados em arranha-céus parecem mais claros, as pessoas mais leves, a neve forma um grande manto branco que cobre o alcatrão negro e sujo. Como se a neve tornasse a cidade mágica, excepcional!”

Eu partilhava da mesma opinião. Olhei finalmente para ele. O nosso olhar cruzou-se profundamente num abraço e num beijo apaixonado.

“Hoje finalmente entraste, estava a pensar que nunca te decidirias.”

“Este aroma de café, que sempre me obriga a parar, convidou-me a entrar e eu aceitei.” Ficamos ali num silêncio em que trocamos mais que palavras.

Parada em frente à coffee-shop sinto o delicioso odor que emana e que me faz recordar aquele estranho que partilhou comigo um mundo de sabores, cores e sons apaixonados.

“Quem te convidou a entrar fui eu, o aroma foi meu mensageiro. Convido-te a ficar comigo, aceitas?” Relembro.

Olho pela montra e sorrio. Continuo a caminhar.”