Desolação

Vagueio por esta noite negra incessante. Esta noite negra que não me abandona. Não há estrelas, nem há lua, não há luz.
Apenas a desolação do negrume.
Invade-me de dentro para fora, sinto-a a corromper-me. A corroer-me. Como a ferrugem corrói o ferro, transforma-o em pó vermelho de nada.
A minha alma despedaçada nesta noite e não encontro os seus fragmentos.
Oh desespero!
Já experimentaste gritar no vazio?
Eu já.
Ninguém te ouve. Não há eco, o som é consumido pelo vácuo.
Não há som, não há luz. Só eu na noite.
Carcaça vazia de alma ferrugenta.
A apodrecer lentamente,
dolorosamente,
solitariamente
no vácuo da noite.

O ciclo vicioso do vazio.

Estranha forma de sentir – esta incompletude, este vazio, esta falta de qualquer coisa que me impulsiona a estar sempre à procura de algo que não sei o que é, não sei onde está.

Por fora os parâmetros quotidianos são o que me fazem circular por mais um dia. A rotina, o trabalho, o sorriso mecânico, a empatia robótica.

Mas por dentro não há nada. Não sinto, este vazio deixa-me sonâmbula, dormente. Sempre esta incessante procura por mais, pelo tudo!

E quando penso que encontro volto a cair neste vórtex do nada. Arrasta tudo para ele. Perco tudo em mim. A conquista do nada é aquilo que tenho para mostrar.

Nem sei porque choro, já nem sinto a tristeza. Talvez seja pelo desespero gritante do nada.

E vou caminhando pelas sombras, perdida, sozinha, abandonada. E as sombras falam comigo, ouço e tento não escutar. Mas não consigo. Elas puxam-me. Elas dizem para parar de lutar contra o falhanço que é tentar sair do vazio.

Não te iludas – suspiram elas.

Agora dorme… O amanhã será mais um dia de vácuo, horas inóquas, palavras indiferentes, sorrisos mecânicos e a tua alma presa do outro lado – deste lado – no ciclo vicioso do vazio.

Esperança fingida

Esperança fingida.
Espreitas pela escuridão como um pequeno rasgo de luz num negro céu infinito. E eu teimo em não te querer ver.
Esperança fingida.
Existes para me iludir, contas a história que quero ouvir, com as palavras que quero dizer e dizes-me que o coração não mente.
Não mente? Mentes-me tu, esperança fingida, queres fazer-me acreditar em ti e ganhar forças na minha ingenuidade.
Vais me dar a mão até quando? E deixas-me cair no vazio da ilusão desamparada! Esperança fingida, que fazes tu aqui outravez?
Já não te tinha dito para não voltares! E chegas com as tuas palavras sibilantes que me seduzem a alma. Porque quero tanto acreditar, mas o abismo puxa-me e não consigo!
E continuo a cair! E até quando?
Estendes-me a falsa rede de segurança, feita de linhas de papel trémulas, vazias, transparentes.
Dilacerante esperança fingida!

 

A casa está fria.

In obscuro libertas praevalet by LaCrisi

A casa está fria,
A porta aberta.
Mas eu não consigo sair.
Não quero sentir isto mas não consigo evitar. O meu coração está em guerra aberta com a razão.
Não, não quero pensar mais, não quero sentir mais. Esta inconstância rasga-me por dentro! Sinto a frieza à qual já não sou indiferente.
Sinto as minhas emoções a puxar-me para um lugar tão escuro que nem consigo perceber ao certo se ele existe mesmo.
Senso de normalidade desgastada, de paz invertida, indiferença dilacerante.
Indiferença dilacerante.
E tudo o que surge exacerba a podridão. E tudo o que se esconde potencia o negrume.
Eu não sou mais quem sou.
E as amarras cortam-se com a ponta fina da navalha, demora o seu tempo e dói que se farta! E ouço os gritos estridentes de dor, mas sou a única. Mais ninguém ouve, mais ninguém compreende.
Este silêncio ensurdecedor.
Mais ninguém sabe.

Não sei.

Não sei. Às vezes simplesmente sinto-me ausente, fora de mim mesma. E procuro algo que me faça sentir… Sentir qualquer coisa. Um arrepio, medo, emoção, desejo, carinho, atenção. Qualquer coisa. E ao mesmo tempo não sei. Não sei o que sinto, só que não sinto, dormente. Nem sequer um formigueiro. Nem quando estou com alguém que expressa desejo por mim e me toca ou me beija, eu deixo na esperança de sentir algo. Nada. Nem um frio pela espinha, nem um ardor de desejo, nem um resquício de paixão, nem uma gota de remorsos, nem o húmido do seu beijo. Mas que raio! O que é isto? Não percebo esta falta que sinto constante, um vazio por preencher. E tento, muitas vezes das piores maneiras, sentir nem que seja dor, mas a única coisa que sinto é falta, é vazio. Como é possível sentir totalmente nada? Não sei.

Ainda

A ti deixo-te a vontade de não esquecer.

Tu que partiste abruptamente deixo-te a vontade de lembrar e relembrar todos os momentos vividos, conseguidos e roubados. Deixo-te todas as emoções contidas em palavras ditas ou escritas.

Deixo a ti a inocência de um sentimento puro e a indecência da razão, o aroma a sal e a areia, os lençóis brancos e a janela aberta. O tempo partilhado e esgotado. Os momentos de filme que existiram num tempo suspenso.

A despedida sentida quando olhei para trás e soube que seria a ultima. As lágrimas, os sorrisos, as gargalhadas.

A ansiedade de um encontro. A tristeza da impossibilidade. Deixo aqui a tentativa para esquecer tudo isso, que me ficou marcado na carne. Que me ficaste marcado na alma. Que me ficou cicatrizado no coração. Que não cura, não fecha, não sara – a memória que não morre nunca – por mais que a sufoque.

Todas as Decisões Erradas

Sem querer ela conhecera a sua outra parte. Aquele que ela pensava não existir. Aquele que, sem ela o saber ainda, a completava. Sem suspeitar ela conhecera o homem por quem viria a apaixonar-se e mais tarde amar.

Soubesse ela disso não teria tomado todas as decisões erradas que a deixariam depois apenas com as recordações de um amor profundo, de efémeros momentos a dois e com a mágoa de uma perda que seria culpa dela.