Amor transcendental

Não costumo ter grandes expectativas de romance na vida mas acredito n'o grande amor. Não sou daquelas pessoas que esperam um conto de fadas e que acreditam num príncipe encantado e no sapatinho cinderela. Mas também não sou céptica. Posso viver feliz numa altura em que a monogamia não é necessariamente a norma e em que o "felizes para sempre" não é um standard. Mas mesmo assim acredito n'o grande amor. Acredito porque já o vivi, já o tive.

Já senti aquele amor que te consome, tão enorme e massivo que te transcende. Aquele amor que nem conseguimos conceber que existe no nosso mundano e demasiado real planeta.

Aquele amor que te arrebata numa tempestade incontrolável e que depois se mantém numa brisa suave, quase inexistente, mas sempre presente, durante anos. O tipo de amor que inspira sinfonias, que dá palavras a poetas. Que te ensina mais do que aquilo que poderias imaginar e que, durante muito tempo depois, te continua a entregar importantes lições.

Aquele que é O Amor da Tua Vida. Aquele que se tivermos muita sorte, o encontramos em alguma parte do nosso caminho. O conhecemos, o temos, aprendemos com ele, damo-nos de corpo e alma e que permitimos que a sua mera existência nos toque e nos mude naquilo somos, na essência do nosso mais profundo "eu". 

É uma experiência como nenhuma outra na vida.

Mas o que aprendi com a vida e com esse tipo de amor foi que, apesar de o encontrares, ele poderá não ser para sempre teu. Tens o privilégio de amar mais completamente, sentir mais profundamente e aprender mais sobre ti mesmo com esse amor, mas também aprendes que terás de ter em ti a capacidade de aceitar que ele não te pertence e a força de abrir mão de um amor assim.
Nem sempre podes agarrar o amor da tua vida, porque na vida real só amar não chega. Não resolve diferenças irreparáveis, não triunfa sobre a doença ou salva-te de ti mesmo quando já foste longe demais.
Por vezes o maior e mais importante gesto de amor que poderás fazer é abrir mão dele, libertá-lo. Outras vezes a vida decide fazê-lo por ti. Mas o facto de não ficares o resto da tua vida com esse grande amor não o torna menor ou mais insignificante.

É possível amar alguém mais num ano do que numa década. Há pessoas que te ensinam mais num dia do que muitos numa vida inteira. E quem somos nós para desacreditar os amores da nossa vida? Quem somos nós para minimizar o seu impacto, apagar as suas memórias, esquecer as suas lições simplesmente porque os nossos caminhos divergiram? 
Talvez a lição maior (e mais tardia) que esse amor tem para te dar é saber agradecer.

Agradecer por nos termos cruzado, conhecido e amado. Agradecer por teres encontrado essas pessoas, agradecer pelo facto de nos terem amado tão incondicionalmente. Agradecer pelo facto da tua alma ter-se expandido pelo simples facto de os termos conhecido. Agradecer por nos conhecermos a nós mesmos ainda mais e melhor apenas e só pelo facto de termos experienciado esse tipo de amor. 

Conhecer e perder o amor da tua vida não tem de ser a tua maior tragédia, se quiseres pode ser uma das maiores bençãos. Pensando bem, muita gente poderá não ter este privilégio. E tu foste escolhido para tê-lo.

E eu também.
E é uma das minhas maiores conquistas.
Amar para lá das medidas do real, do físico, do lógico, da razão.
Amar transcendentemente.

Eu digo foder, tu chamas-lhe amor.

Nunca gostaste que eu fosse ordinária. E eu sempre detestei que fosses lamechas.
Ignoramos essa parte um do outro para abraçarmos todo o resto, achávamos que todo o resto valia a pena, todo o resto seria muito melhor.
Mas tu continuavas a querer que eu fosse outra coisa e eu continuava a achar que eras outra coisa.
E quando achávamos que podíamos ser indiferentes abríamos ainda mais o precipício entre nós. 

Tu querias fazer amor comigo e eu queria um homem que me fodesse. Que me quisesse nua e crua, já, agora! Que não pudesse esperar para me ter e para meter.
Tu querias uma dança coordenada, um ballet entre dois, querias saborear e amar. Eu queria o caos, corpos suados, dor, prazer, raiva, paixão!

Amar…isso do amor é durante dia. É durante a luz. O amor é tudo aquilo que fazemos um com o outro e um para o outro. E eu precisava da noite e também precisava que me acompanhasses, mas tu davas-me a mão e puxavas-me para ti. “Não entres aí” – dizias. E eu ficava para o amor mas tu nunca para a paixão. Eu precisava que me fodesses. E tu nunca percebeste que foder era também uma forma de amar. Queria perder-me completamente no teu corpo, no prazer, na tua pele, no êxtase. Mas tu… tinhas medo de te perder na noite ou em mim (ou em ti). Não confiaste em mim o suficiente para que te levasse e ficaste.

Eu preciso que me mordas o lábio tanto quanto me digas que me amas ao ouvido. Eu preciso que me arranhes a pele tanto quanto me acaricias o cabelo. Eu preciso que entres em mim vigorosamente tanto quanto me abraças com ternura. Mas tu não. E quando deixamos de fazer amor, deixou de haver amor pois já não havia qualquer tipo de entrega. E aí o abismo aprofundou abruptamente. Tu precisavas que te amasse delicadamente. Que trocássemos juras eternas, que te acarinhasse e controlasse a tesão. Tu não querias abdicar do espaço do amor e deixar entrar a paixão. Tu não querias perder o controlo. Tudo era romantizado, adocicado, coreografado.

Fomos indiferentes até que as diferenças nos afastaram.
Para que me amasses completamente terias de abraçar o teu demónio interior, só assim conseguirias entender o meu.
Faltava-te uma parte que eu não poderia preencher.
Faltava-me uma parte que tu não poderias preencher.
E mesmo tendo sido muito não fomos tudo.
E assim ficamos incompletos.

Eu na noite e tu no dia.

“Um dia vamos juntos.”


Foi esta a promessa que fizemos um ao outro.

Teríamos ido juntos, com toda a certeza, não fosse a vida a arrancar-nos um do outro, teríamos caminhado de mãos dadas até ao horizonte. E que bom teria sido!
Mas não fomos e não faz mal. Continuamos a caminhar paralelamente, percorrendo o rio do tempo cada um na sua margem. Sem nunca deixar de olhar, sem nunca deixar de sorrir, sem nunca deixar de querer, mas nunca podendo nos aproximar.
Sendo perto ou longe as mãos não se tocam mas apoiam-se.
Se me veres cair aguardas até que me consiga levantar. Está tudo bem, tu estás aí e isso dá-me alento ao coração, dá-me alento à alma.
Partilhamos momentos mas noutro tempo, noutro espaço ou noutra dimensão. Haverá sempre o vestígio da nossa presença em cada uma das nossas vidas pois nunca deixamos de existir, só deixamos de ser. Mas continuamos a estar. A sorrir, a correr, a parar, a viver, a caminhar lado a lado, cada um no seu, rumo ao horizonte.

Um dia vamos juntos – a promessa que acabou por nunca se cumprir.

Fotografia do Porto


O Porto é uma menina a falar-me de outra idade. Quando olho para o Porto sinto que já não sou capaz de entender a sua voz delicada e, só por ouvir, sou um monstro que dói. Mas os meus dedos são capazes de tocar-lhe os ombros, afastar-lhe os cabelos. Entre mim e o Porto, existem milímetros que são muito maiores do que quilómetros, mesmo quando os nossos lábios se tocam, sobretudo quando os nossos lábios se tocam. De que poderíamos falar, eu e o Porto, deitados na cama, a respirar, transpirados e nus?
Eis uma pergunta que nunca terá resposta.  

José Luís Peixoto in Gaveta de Papéis

Caminho para o nada

Preciso que sigas em frente sem olhar para trás.

(Não, espera!)

Preciso que sejas mais forte que eu.

(Pára, escuta!)

Preciso que me esqueças para sempre.

(Ou nunca!)

Preciso que este momento seja o final.

(Dá-me a mão, fica!)

Quero que guardes apenas este último beijo.

(Não me deixes ir!)

Quero que sintas este último abraço.

(Por favor, pára!)

Quero que saibas que vou-te amar para sempre.

(Para sempre.)

Tens de saber que já não consigo.

(Amar-te e não ter-te.)

Tens de saber que me magoas.

(Que me partiste o coração.)

Fica a saber que não é uma decisão fácil.

(Não quero, abraça-me!)

O nosso amor poderia ter sido tanto!

(Mas não quiseste!)

Tens de perceber que no amor não há uma segunda opção!

(É tudo ou nada!)

E poderias ter sido tudo.

Não olhes para trás.

(Nada.)

Porquê escrever? 


“A escrita é um encontro entre duas pessoas através das palavras.”

Escrevo para estar contigo, escrevo para estar comigo. Para dizer tudo o que não pude falar e mostrar tudo o que não pude sentir. Para transformar as memórias em saudade, em paixão, em mágoa. Para nunca esquecer e para sempre poder recordar.
Escrevo para exorcizar. Para expelir os demónios e lavar a alma. Para não chorar. Para sorrir cada vez que releio cada memória partilhada.
Escrevo para conversar contigo. Porque a minha alma não pode ficar calada. Porque é assim que mantenho a chama acesa, a sensação de que estou aqui, estou presente, de que sou capaz de deixar a minha marca. Por mais pequena que pareça, mas afinal o que somos nós senão partículas espalhadas pelo universo? 

O que é este blog senão apenas palavras deitadas no vazio, que vagueiam entre o tempo e o espaço, que ecoam em ti, que vibram em mim?
Escrevo porque posso, porque preciso, porque quero, porque é urgente. Porque é para mim e é para todos e não é para ninguém, nem para ti.
Escrevo para não ter de o dizer.


Tenho saudades das tuas mãos. Oh meu deus, como tenho saudade das tuas mãos. E eu que nem sou religiosa sinto necessidade de usar esta expressão para dizer o quanto tenho saudades das tuas mãos! 

O vento sopra com força e o cabelo esvoaça loucamente, eu sorrio-te enquanto tu carinhosamente desvias o meu cabelo da cara e me beijas. Como tenho saudades dos teus lábios. Não consegui mais sentir o que sentia contigo quando me beijavas. Cuidadosamente prendes o meu cabelo por detrás da orelha. Beijas-me o pescoço e todo o meu corpo treme. Suspiras ao meu ouvido “adoro-te” mas eu sei que amas. Eu sinto que me amas. Quando me abraças e me puxas bem junto para ti, do cimo do monte, à beira do precipício, vista rio, cheiro a mar. Tu brincas: um dia vamo-nos casar aqui e ris. 
Eu sorrio e encosto a cabeça ao teu peito, junto ao teu coração: eu sei que tu me amas.

E há melhor sensação no mundo?

Só mesmo quando me atiras para a cama, despida de corpo e de alma e me mostras que me amas.
“Adoro-te, ouviste? Adoro-te!”

Eu ouço-te, desde a alma. E acredito, não tenhas dúvidas! As tuas mãos passeiam-se pelo meu corpo, brincam, pululam, provocam. E eu adoro as tuas mãos, o teu toque, o teu jeito, o teu beijo.

Adoro quando me amas e adoro quando me fodes. 

Os nossos corpos fundidos, as nossas almas entrelaçadas, a nossa mente delirante de tanto prazer, os nossos corações em uníssono. 

É lamechas mas que se lixe! É a verdade: mais ninguém me fez sentir como tu, me amou como tu, me fodeu como tu.
E ás vezes, tantas vezes, inesperadamente, sinto saudade. 

De ti. De tudo. De nós.