Fotografia do Porto


O Porto é uma menina a falar-me de outra idade. Quando olho para o Porto sinto que já não sou capaz de entender a sua voz delicada e, só por ouvir, sou um monstro que dói. Mas os meus dedos são capazes de tocar-lhe os ombros, afastar-lhe os cabelos. Entre mim e o Porto, existem milímetros que são muito maiores do que quilómetros, mesmo quando os nossos lábios se tocam, sobretudo quando os nossos lábios se tocam. De que poderíamos falar, eu e o Porto, deitados na cama, a respirar, transpirados e nus?
Eis uma pergunta que nunca terá resposta.  

José Luís Peixoto in Gaveta de Papéis

Caminho para o nada

Preciso que sigas em frente sem olhar para trás.

(Não, espera!)

Preciso que sejas mais forte que eu.

(Pára, escuta!)

Preciso que me esqueças para sempre.

(Ou nunca!)

Preciso que este momento seja o final.

(Dá-me a mão, fica!)

Quero que guardes apenas este último beijo.

(Não me deixes ir!)

Quero que sintas este último abraço.

(Por favor, pára!)

Quero que saibas que vou-te amar para sempre.

(Para sempre.)

Tens de saber que já não consigo.

(Amar-te e não ter-te.)

Tens de saber que me magoas.

(Que me partiste o coração.)

Fica a saber que não é uma decisão fácil.

(Não quero, abraça-me!)

O nosso amor poderia ter sido tanto!

(Mas não quiseste!)

Tens de perceber que no amor não há uma segunda opção!

(É tudo ou nada!)

E poderias ter sido tudo.

Não olhes para trás.

(Nada.)

Porquê escrever? 


“A escrita é um encontro entre duas pessoas através das palavras.”

Escrevo para estar contigo, escrevo para estar comigo. Para dizer tudo o que não pude falar e mostrar tudo o que não pude sentir. Para transformar as memórias em saudade, em paixão, em mágoa. Para nunca esquecer e para sempre poder recordar.
Escrevo para exorcizar. Para expelir os demónios e lavar a alma. Para não chorar. Para sorrir cada vez que releio cada memória partilhada.
Escrevo para conversar contigo. Porque a minha alma não pode ficar calada. Porque é assim que mantenho a chama acesa, a sensação de que estou aqui, estou presente, de que sou capaz de deixar a minha marca. Por mais pequena que pareça, mas afinal o que somos nós senão partículas espalhadas pelo universo? 

O que é este blog senão apenas palavras deitadas no vazio, que vagueiam entre o tempo e o espaço, que ecoam em ti, que vibram em mim?
Escrevo porque posso, porque preciso, porque quero, porque é urgente. Porque é para mim e é para todos e não é para ninguém, nem para ti.
Escrevo para não ter de o dizer.


Tenho saudades das tuas mãos. Oh meu deus, como tenho saudade das tuas mãos. E eu que nem sou religiosa sinto necessidade de usar esta expressão para dizer o quanto tenho saudades das tuas mãos! 

O vento sopra com força e o cabelo esvoaça loucamente, eu sorrio-te enquanto tu carinhosamente desvias o meu cabelo da cara e me beijas. Como tenho saudades dos teus lábios. Não consegui mais sentir o que sentia contigo quando me beijavas. Cuidadosamente prendes o meu cabelo por detrás da orelha. Beijas-me o pescoço e todo o meu corpo treme. Suspiras ao meu ouvido “adoro-te” mas eu sei que amas. Eu sinto que me amas. Quando me abraças e me puxas bem junto para ti, do cimo do monte, à beira do precipício, vista rio, cheiro a mar. Tu brincas: um dia vamo-nos casar aqui e ris. 
Eu sorrio e encosto a cabeça ao teu peito, junto ao teu coração: eu sei que tu me amas.

E há melhor sensação no mundo?

Só mesmo quando me atiras para a cama, despida de corpo e de alma e me mostras que me amas.
“Adoro-te, ouviste? Adoro-te!”

Eu ouço-te, desde a alma. E acredito, não tenhas dúvidas! As tuas mãos passeiam-se pelo meu corpo, brincam, pululam, provocam. E eu adoro as tuas mãos, o teu toque, o teu jeito, o teu beijo.

Adoro quando me amas e adoro quando me fodes. 

Os nossos corpos fundidos, as nossas almas entrelaçadas, a nossa mente delirante de tanto prazer, os nossos corações em uníssono. 

É lamechas mas que se lixe! É a verdade: mais ninguém me fez sentir como tu, me amou como tu, me fodeu como tu.
E ás vezes, tantas vezes, inesperadamente, sinto saudade. 

De ti. De tudo. De nós. 

Não digas nada.


Hey? Pssst! Tenho de perguntar-te… Contaste a alguém? O nosso segredo. Como assim qual?? Tu sabes do que falo. Aquele que guardamos entre os lábios entrelaçados, entre os corpos suados, entre as mãos cruzadas. Aquele que juramos nunca pronunciar. Sim…esse mesmo. Tiveste a coragem de contar a alguém? Eu espero que não, eu quero que não. Queria amar-te para sempre em segredo. 

Viver na surdina da nossa paixão, fechar os olhos e saber que para sempre iríamos existir nesta partilha misteriosa. Que foste fazer? Estragaste tudo. Ninguém tem de saber senão nós, o amor apenas a nós convém, a paixão apenas em nós vibra. Será que alguém sabe? Vamos apaixonar-nos por essa adrenalina. Será que alguém nota? 

As mãos que tocam sem querer. 

As pernas que roçam debaixo da mesa.

Os olhares cúmplices.

“Quero-te agora mas aqui não.”

“Beija-me não aguento mais, aqui que ninguém vê…” Mas à vista de todos! Á luz do dia, à porta antes de ires embora à socapa.

Não me digas! Não me digas que foste contar! És ridículo! Não temos que partilhar a não ser um com o outro. Estás tão quente, incendeias-me quando me abraças, vem cá agora e sussurra no meu ouvido o quanto me amas. Fala baixo para ninguém ouvir. Desliga as notificações das minhas mensagens. Não deixes ninguém perceber… Vamos viver no limbo, entre o real e a magia. 

Não sorrias para mim agora, não sejas ingénuo, toda a gente sabe que esse sorriso parvo só sai quando estás apaixonado. Não entregues o jogo tão facilmente. Tocas-me enquanto me passas a caneta, em frente a tudo e todos, dá-me vontade de rir o quanto tu arriscas, em troco de nada! Quê? Dá-te tesão? Gostas da ansiedade? Não tens medo? 

Cala-te e beija-me. Idiota.

Atreve-te.

Não digas nada a ninguém.

Eu e tu. Nada

Terei sempre medo quando me dizes olá.

Há anos que não te vejo, ouço a tua voz ou leio as tuas palavras, não passavas de uma memória longínqua. E de repente ao virar da esquina lá estavas tu. Irritei-me de verdade com o destino, com o timing, contigo!! Porque tinhas de estar ali? Visito Lisboa tão poucas vezes e logo agora a teoria das probabilidades esteve contra mim, o karma, o fado, chama-lhe o que quiseres! Numa imensidão de lugares – e olha que em todos imaginei a tua presença! – tinha de ser neste onde não te esperava.

Numa fracção de segundos pensei em mil cenários e engenhei a minha silenciosa fuga. Mas as forças do universo, a linha condutora, a sina, dá-lhe o nome que achares melhor, quis que tu deitasses o fumo do cigarro na minha direcção.

E lá estava eu parada, gelada, imóvel a olhar para ti com pânico no olhar, foi quando tu sorriste e cruzaste o olhar comigo.

Terá sido este o propósito desse cigarro? Que te fez sair de onde estavas no exacto momento em que eu cruzei a estrada, em que acendeste o cigarro calma e lentamente e eu virei a esquina e tu expiraste o fumo pesado e olhaste na minha direcção e eu na tua.

O momento que ficou suspenso.

E ainda por cima sorriste e eu sei porquê, conseguiste perceber o pânico nos meus olhos, foi isso que me irritou ainda mais. Depois de tanto tempo e mesmo sem trocar palavras consegues ler-me, ainda, facilmente.

Eu continuei imóvel, já não podia fingir que não te tinha visto, voltar atrás, apagar aqueles segundos, tomar a outra esquina – já não tinha escolha. Fitei o chão desconcertada e tu caminhaste na minha direcção. A cada passo que davas o meu coração apertava de dor. A cada passo que davas eu sentia medo, alegria, mágoa, paixão, tristeza e de repente parecia que estava a acordar de um sono profundo mas nada sereno. Nada mesmo. Era um acordar extremamente doloroso. E eu não queria mas queria tanto.

Disseste olá e eu… Eu desmoronei por completo por dentro. Tentei manter a postura, tentei não o mostrar… Os pedaços que tu deixaste partidos, quebrados, rachados, facturados da minha alma. Aqueles que te recusaste a colocar de volta, seria impossível de qualquer modo, não haveria super cola no mundo que me deixasse completa.

Só, talvez, o teu amor – mas não, nem isso.

Eu retorqui “Olá” e a minha voz tremeu, não consegui sorrir-te. Tu pegaste na minha mão e ficamos ali, naquela esquina, juntos mas afastados. Em silêncio, em segredo. Na surdina dos ecos do passado, do que fomos, do que sentimos e do que tivemos. E o que nos unia agora era apenas a fatalidade daquele momento em que chocamos um com o outro e fomos tudo o que fomos e somos o nada que somos.

Sem mim.

Preciso de falar contigo, consegues ouvir-me? Sim? Ah…

Só queria saber se para ti foi tudo um jogo? Se eu fui uma apenas uma conquista ou até uma mera distracção… Se os teus beijos eram teatro e as tuas juras de amor uma manipulação. Se o meu coração apenas te serviu de entreposto enquanto estavas de passagem.

Estou? Estás a ouvir-me?

Devias ter escolhido o silêncio em vez de dizeres que me amavas, tal como o estás a escolher agora. Não tens resposta ou não queres responder?

Quantas vezes me quis ir embora e tu não deixaste disseste que precisavas de mim. Agora percebo, precisavas de mim para construíres o teu mundo fantasioso paralelo à tua realidade. Mas a tua ilusão era a minha realidade, sabias?

Agora olho-te de longe e nem sei quem és. Fui eu que sonhei ou tu que imaginaste?

Que pessoas fomos nós? Altamente indiferentes ao mundo lá fora… Eu não era eu e tu nem sei, foste alguém que não tu e de repente deixaste de existir. E eu também. Quando deixaste de existir deixei de ser a mesma pessoa e o amor já não era a mesma coisa. A paixão via-me com outros olhos. Deixei de sentir até tudo ficar dormente até deixar de sentir toda a dor e mágoa que restou quando detonaste a minha realidade e abandonaste a tua ilusão. Quando viraste as costas, sorriste, desapareceste, sem rasto, sem memória, sem…mim.

Perfume de Baunilha

Ela não era o tipo de rapariga que combinava a roupa interior. Quando saía desajeitadamente do duche pegava no primeiro par de soutien e cuecas que lhe vinham à mão. A sua lingerie provavelmente não entrava na categoria de lingerie. A sua roupa interior, termos mais adequados, era confortável nunca deixando de ser bonita. Tinha algumas peças mais sexys, que a faziam sentir especial quando as vestia, mas sem nunca abdicar de se sentir bem.

Assim era ela. Desajeitada, confortável, bonita, fazia qualquer um se sentir bem.

Vestia-se igual a si mesma.

Ela tinha um perfume de baunilha que colocava todos os dias, sem falhar. Ela na brincadeira chamava-o de “A sua essência”. E na verdade quando ela passava já a reconheciam pelo aroma de baunilha que delicadamente ficava a pairar no ar, a dançar com os sentidos. E a sua essência envolvia-a docemente num sonho doce de desejo e luxuria e ela gostava dessa sensação. Nunca abdicava do seu perfume de baunilha.

Antes de sair de casa fazia sempre uma festinha ao seu gato, despedia-se dele num gesto, talvez um pouco macabro, de que se aquele fosse o seu último dia pelo menos ele saberia que foi amado até ao último segundo. Sorria e saía.

Para ela o conceito de viver apaixonadamente parecia-lhe algo tão abstracto, nunca percebeu bem o que aquilo significava. Para ela seria talvez o facto de viver sem arrependimentos, sair de casa de manhã e sorrir, caminhar para o trabalho com os phones nos ouvidos a ouvir as suas músicas favoritas.

Passar pelas pessoas, observar como se sentam e conversam, como se riem ou como se zangam. Para ela talvez fosse isso, não perder um segundo e ter a certeza de que se aquele fosse o seu último segundo, todos saberiam que foram absolutamente amados por ela.

E seguia a sua rotina interminável. Duche, roupa, sapatos, adeus ao gato, caminhar a sorrir, trabalho.

As horas no trabalho sempre lhe pareciam escassas e ao mesmo tempo intermináveis. Ás vezes sentia que havia tanto mundo lá fora para conhecer e que iria morrer parva naquele escritório em nome das regras da sobrevivência. As horas que gastava na sua vida em nome do “precisar dinheiro para viver”.

“Será?” – perguntava-se – “Será mesmo isso que precisamos para viver?”

Ela precisava do cheiro a mar para viver. Ela precisava de amor e de paixão para viver. Ela precisava profundamente das pessoas para viver.

Outras vezes sentia que todo o tempo era pouco, via o tempo no seu trabalho como um investimento que lhe permitiria um retorno com o qual poderia viver as mais variadas peripécias e aventuras.

E mais um dia passava e ela saía com um sorriso.

Adorava conduzir com a música alta e os vidros abertos. Dançava com os dedos no volante ao som da melodia que o rádio lhe oferecia. E cantava alto. Por vezes ria-se de si mesma, o que diriam se a vissem? E sorria. Talvez pensassem: “lá vai aquela rapariga feliz!” E ela até se sentia feliz! Pelo menos na maior parte das vezes.

Adorava estar com os amigos ao final do dia, numa qualquer esplanada com uma qualquer bebida na mão e uma mesa cheia de petiscos.

Haverá algo melhor que uma mesa cheia? Cheia de amigos, cheia de comida, cheia de amor!

E quando já era de noite e fazia o caminho de volta para casa pensava o quão sortuda se sentia por ter dias assim. Com minutos cheios de coisas boas. Não precisava de mais, ela tinha tudo o que poderia querer: amor, amizade, carinho e os prazeres simples da vida.

Quando rodava a chave já ouvia o seu gato a miar, talvez lhe estivesse a perguntar onde esteve todo o dia ou a exclamar o quanto sentira a sua falta ou estaria apenas a exigir comida. Ela fazia-lhe festinhas e olhava profundamente para ele, pensando para si mesma “mais um dia, estou aqui”. E sorria.

 

 

Incenso

Chegas e atiças-me fogo com a tua chama. Entro em combustão de dentro para fora e de fora para dentro. És a minha pele, estás na minha pele que queima violentamente, descontroladamente.
Deixas-me assim a consumir-me pelo teu fogo, lentamente, como um incenso que vai dissipando a sua essência.
É assim que me queres? Consumida por ti, febril, na brasa lenta da tua tesão.
Consegues sentir? Porque eu sinto-te a entrar em cada poro, cada milímetro do meu corpo responde a ti. Submete-se a ti. Consome-se por ti. Espera por ti. Pacientemente, ansiosamente.

Apaixonadamente.

 

A doença que é amar-te.

Só passou um dia mas parece que voou toda uma eternidade.

Já não te disse olá quando acordei.

Continuas a surgir no meu pensamento enquanto as horas se arrastam pela sala vazia, não te consigo ver mas ainda te consigo sentir.

Há um vazio mudo nas palavras.

Arrasto-me pelo silencio da mágoa. A única coisa que ficou. Mágoa, solidão, medo, saudade, amor. Tudo o que resta mas não chega, tudo o que dói mas não parte. Permanecem para me recordar o quanto fazes falta, mesmo não estando.

Que raio de merda é esta a paixão?

Ouço-te dizeres-me num sussurro que me amas, a medo, porque sabes que estamos condenados ao nada. E eu também o sei. Sempre soube. Mas dizes na mesma e o amor cai como uma pedra no nosso coração. Destruidor. Totalmente o oposto daquilo que achamos que o amor é: destrói, amarra, magoa, fere, rasga, ensurdece, amarga, distancia, endurece, quebra, queima.

E se 24 horas sem ti pareceram uma vida…

Tinhas de aparecer e levar tudo de mim contigo. Arrancaste-me a alma e agora não consigo mais amar. Não consigo pensar no nunca ou no sempre.

Quero arrancar esta doença do meu peito.

Quero apagar a tua presença do meu corpo.

Quero tapar o vazio da tua ausência.

Não. Quero sair da impossibilidade.

Pára de respirar no meu ombro e de me beijar o pescoço, não aguento mais continuar a saber que ainda me amas e que ainda te amo. Este amor doente, decadente, moribundo.

Sem espaço, sem tempo nem circunstância.

Condenado à morte desde o primeiro eterno segundo.

Deixou-nos a sentença da saudade e da distância.