Uma Música Que Alguém Me Deu – II

Por vezes na vida perdemos fé nas pessoas, na capacidade de resistência da amizade. Tomamos pessoas e sentimentos por garantidos. E existem aquelas pessoas, talvez uma mão cheia, talvez menos talvez mais, que levantam de novo o véu do que é uma das emoções que sobrevivem tempo, muros de pedra, nuvens cinzentas, silêncios obscuros, felicidade extrema.

De repente a vida atira-nos com as verdades na cara para que não nos esqueçamos que nem tudo é cinzento escuro efémero e fútil. Aquelas pessoas que sabemos que serão as vigas da nossa existência e nós das delas, que sem elas não existiríamos como existimos, que não seriamos quem somos. Que fazem mais do que parte da nossa vida. Tornam-se parte da nossa personalidade, parte da nossa existência, parte do nosso ser.

As pessoas que representam a amizade absoluta, “no matter what“. Com quem rimos, sonhamos, convivemos, vivemos, sobrevivemos, aprendemos. Que nem sempre sabem o que nos dizem, que também não são perfeitas, que nos ensinam a nossa falibilidade. Que nos dão a mão, a quem damos a mão. Que fazem parte dos nossos segredos. Fazem parte dos nossos medos. Com quem choramos. Que confortam o nosso coração. Que nos dão uma tareia se for preciso. Que nos mostram o outro lado, o lado de fora, o que não é bem assim, a imagem completa. Que nos tiram da nossa caixinha fechada e nos jogam um balde de realidade gelada. Que são uma outra forma de amar. Que nos mostram a outra parte de nós, a parte que só eles vêm e nós não,  o espelho.

E que, mesmo longe, mesmo ausentes, mesmo silenciosas, abrem caminho até nós quando for preciso.

Os amigos que nos ajudam a sobreviver. Os amigos que facilitam o viver. Aquele punhado de pessoas das quais não abririamos mão. Os verdadeiros sinceros “no matter whatamigos.

Uma Música Que Alguém Me Deu – I

Naquele dia o J. veio me buscar.
Durante a travessia do Tejo o meu coração sofria arritmias agressivas.
Os seus beijos faziam-me saltar uma batida. O seu olhar acelerava-me os batimentos por segundo.
Por instantes o meu olhar fugia para o horizonte e fitava as margens do rio. Quando pensava na realidade o meu coração quase parava. Tínhamos construído uma ilusão em que ambos acreditavamos. Aquele mundo só existia se estivéssemos juntos e quando estávamos tudo ameaçava implodir sobre os nossos peitos. Julgava eu que já tinha conhecido a Paixão. Estava eu tão enganada. Ao subirmos a colina de carro, na minha garganta formava-se um nó. O início do fim. Cada começo significava mais um adeus. Porque não éramos um do outro, na verdade, faltava a realidade. Na nossa fantasia, seríamos eternamente apaixonados, juntos à luz do dia. Por mais que o sol brilhasse crescíamos nas sombras – aquele sentimento temia a luz. E a nossa ilusão protegia a Paixão, dava-lhe resguardo, como uma gruta aos seus morcegos. A música tocou na rádio e J. aumentou o volume:
“É a nossa.”
Ouvi sem desviar o olhar para ele. A ansiedade calou-me a voz.
Aquela música que tocou no dia em que nos conhecemos e soubemos, logo aí, no primeiro olhar, que estávamos condenados. Tínhamos encontrado juntos um problema. Um impasse. Um desvio que nos levou ao êxtase. A um beijo secreto numa praia da Costa da Caparica em noite de lua cheia.
Uma encruzilhada. Um “e agora?”.
E agora? Era o que queria perguntar. No entanto olhei para ele respirei fundo e sorri. Suspirei, deixei-me levar e disse-lhe “Tive saudades tuas”. Senti o mundo parar. A música ficou para sempre nossa. A paixão também.

«Do You Know It’s Christmas?»

Nunca gostei intimamente da época Natalícia.  Sempre foi uma altura do ano que me assustou verdadeiramente. Dezembro era sempre o mês que queria que passasse o mais rápido possível. Dezembro era o culminar de um ano que finalizava comigo de mãos vazias e coração oco. Sem nada a mostrar. Sem nada que fizesse valer. O Natal era um show-off de fantasias que nunca se viriam a concretizar, de falhanços, de silêncio extremo no meu mais intimo. E por isso sempre o desprezei, o Natal, a época em que todos podem ser/mostrar-se/fazer-se felizes.

Não.

Passo os dias a ouvir as músicas de Natal que me consumiam como um buraco negro. Agora não. Dou por mim a cantá-las, com um sorriso de quem faz planos. Já não sinto as mãos vazias. Tenho algo a mostrar: que me libertei de um peso que me arrastava para o fundo de um oceano obscuro e demasiado pesado. Pelo menos um pouco. Permito-me mostrar um sorriso, um esboço de felicidade. E aproveito agora, pelo menos por agora, o Natal ajuda-me a ocupar o pensamento a criar, planear e a abstrair-me do tempo que teima em fugir. Aproxima-se um recomeço onde me posso comprometer a certas coisas – principalmente a esquecer-te. Onde me comprometo a tomar controlo de mim e não deixar que o silêncio roube mais pedaços de mim. Permito recompor-me.

Não, não é o Natal. É chegar ao fim de qualquer coisa e poder ter um vislumbre do inicio de outra. É o terminar e o recomeçar.

 

Não falar, não sentir, não partilhar.

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blank by ~Matthyas-Ironpaw

Não querer,

não cair

ter medo de não levantar.

Não poder amar,

Não chorar,

Não lutar e não vencer.

Não me entregar.

Não esperar.

Não ser feliz.

Não ver e não querer ver.

não ceder.

Não libertar,

não voar, não sentir.

Não pensar e não falar.

Não conhecer, não reconhecer e

não partilhar.

Não aceitar não sonhar.

Não imaginar não viver.

Não ficar e não olhar para trás.

Não desistir e não recear.

Não resistir a não sorrir.

Não sair, não fugir, não parar.

Caixinhas de Recordações

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O Tejo tem um efeito cliché em mim. Fascina-me. Pano de fundo de bons momentos e doces memórias.

Traz-me sentimentos nos seus momentos. Mesmo aqueles que não quero rever nem quero sentir. Mas ali estão, vivem guardados eternamente (ou quase) em pequenas caixinhas da recordação. Fosse eu contar todas as histórias…

Na Lisboa nova houve uma lágrima contida, o Tejo soube mas tu não.

Abracei-te para que não a visses fugir de dentro da minha alma. Foi na primeira vez que senti medo, de me entregar, de te perder, da paixão que nos roubava a calma. Foi quando soube que por mais verdadeiro que parecesse nunca poderia ter-te. Já aí te senti a escapares-me pelos dedos a fugires-me sem olhar para trás, como previsse as imagens de um futuro nas negras águas do Tejo.

Foi o medo que me fez abraçar-te, mais forte e mais longo. Queria sentir o teu coração no presente, junto ao meu, ali e agora.

Tu sentiste sem saber. O beijo foi o mais forte de todos os beijos. Tu não o sabias, mas foi esse o último e o primeiro. O primeiro beijo de todos que marcaram o fim.

Quando dormimos nus

umdaqueles

Quando dormimos nus,despidos dos medos e espectativas,despidos das horas, do tempo, do timing… Quando dormimos nus, despidos da carga da vida, despidos da razão que atormenta.. Quando dormimos com as emoções a nu, e a pele nua à brisa do quarto… o sorriso é de liberdade,despido de ilusões. É presente a nu, a paixão crua, despida de antes e depois, apenas o verdadeiro agora, duas peles que se tocam,duas almas que se amam num êxtase de silêncio, dois sorrisos, quando dormimos nus.