Laboratório de Sensações


Ela recorria a ele pela segurança e tesão que ele a fazia sentir. Eram apenas amigos mas de quando em vez isso tomava a forma de uma paixão inexplorada. Era tudo novo mas ao mesmo tempo confortável e conhecido e ela gostava disso. Ele também. Os dois acabavam por não admitir um ao outro – verbalmente pelo menos.Havia algo entre eles que nunca era falado mas era certamente reconhecido por ambos. Uma verdade silenciada.
Umas vezes estava cada um na sua relação, outras só ela ou só ele e poucas vezes estiveram solteiros sozinhos. Era nesse timing que aquilo que sentiam um pelo outro tinha espaço para ser e para se manifestar. 

Aquele lugar comum inexplorado e cheio de mistério. Não se sabe como nunca chegaram a sequer equacionar uma relação, no papel tinham tudo o que precisavam, paixão, cumplicidade, tesão, companheirismo, sinceridade absoluta. Mas entre eles tudo era vivido noutra dimensão e tal rótulo nunca se enquadrou na sua conjuntura. Eles tinham uma relação sim, muito própria e definida nos seus próprios termos.

Limitavam-se a apreciar-se um ao outro nos fins de tarde na praia (pele com pele), nos passeios de bicicleta estradas fora (aventuras sem fim), nos gracejos, nas provocações, nos conselhos e divagações. Na realidade parecia que apenas um com o outro eram capazes de apreciar e viver cada segundo na sua plenitude. Que peculiares eram estes dois!

Nunca se envolveram sexualmente, esse era o limiar, que nunca fora discutido mas era aceite e estabelecido.

A primeira vez que se beijaram foi um jorro de adrenalina, acho que no fundo ambos sabiam que estavam completamente agarrados aquela sensação. Era um vicio controlado, explorado de quando em quando para não se tornar banal.

E quando se abraçavam era uma descarga eléctrica incrível. 

Ela fantasiava tantas vezes com ele. Ele sabia, pois sabia, ela contava-lhe tudo. Deixava-o a salivar. Dali a dias encontravam-se para café como se nada fosse e todo o desejo ficava subjacente. Falavam sobre banalidades e trivialidades durante horas. Pontuavam as conversas com pequenos contactos, mão na mão, um carinho no cabelo, olhos nos olhos. Adoravam aquele limbo, aquele intermédio, aquele purgatório de sensações. E só funcionava entre eles os dois, aquele lugar que era só deles. Aquele ponto de interrogação que existia entre eles e que os fazia querer explorar um ao outro, um no outro, mas que ficava quase sempre sem resposta propositadamente. Sabiam-no nas entrelinhas.

Talvez seria por isso que tudo ficava por definir. Definir é dar significado, achar um sentido, é chegar a uma conclusão. O rótulo tem um caracter tão redutor e o oeso da finitude. Não. Eles queriam continuar a explorar, a experimentar, a descobrir. Aquele laboratório de sensações era onde eles melhor aprendiam sobre si mesmos. E o desfecho desta experiência ainda estava longe de se conhecer.

Continuar.

Mudar. Acabar. Parar.

Pode ser paralizante, mas cabe a mim não me ficar pelo ponto final.

Findo um capítulo há que virar a página e começar a escrever o próximo. Não acaba enquanto houver amanhã. E a história pode escrever-se sozinha. Mas e então? Queres ser leitor do teu próprio livro ou queres ser tu a escrevê-lo?!

Não será nunca fácil. Mas será menos difícil se acreditares e viveres no teu momento, não esperando pelo amanhã, fazendo tu hoje para amanhã!

Sacar do sorriso. Sacar da alegria. Sacar da vontade! Não deixar sobrecarregar pelo que não tens! Pelo que deveria ser!

As coisas são como TU as fazes. Ninguém fará por ti!

Talvez não marques a diferença no mundo, talvez não saibas qual é o teu papel. Por enquanto é lutar e fazer sorrir. Tens a certeza que não marcaste a diferença no mundo de alguém? Não tenhas tanta. Já o fizeste.

Aceita as tuas vitórias, as tuas conquistas, as tuas falhas! Acima de tudo, aceita a ti mesma!

Não baixes a cabeça à adversidade. Vais conseguir. Tens de desistir só porque não é agora? Não! Se desistires não acontecerá nunca! É hoje. É Hoje!! A única coisa que tens garantido é o hoje.

Por isso sê hoje. Ri hoje. Ama hoje. Sente hoje. Faz hoje. Vive hoje. Beija hoje. Sê feliz hoje. Sê cada vez uma melhor versão de ti hoje. Deixa os outros entrar hoje.

Não deixes que o queixume, as reclamações, a negatividade te façam perder o hoje. Quem sabe se não haverá amanhã.

Portanto, levanta-te daí agora. É agora que tens de continuar.

Não fiques á espera.

Porque o agora também não espera por ti.

 

 

Escrever é perigoso

Escrever é esquecer. A literatura é a maneira mais agradável de ignorar a vida.” Fernando Pessoa em O Livro do Desassossego

Deixar de escrever foi a pior coisa que alguma vez pensei fazer. Talvez uma das piores que já fiz a mim mesma. “E depois?” – perguntei a mim mesma – e se lerem? E se me pedirem justificações pelas palavras, pela emoção contida, pelo significado? Entendam o que quiserem entender, dêem-lhes os significados que melhor consigam. E se algum dia não fizer sentido, não me perguntem, não responderei. O melhor a fazer, para dissipar dúvidas ou questões inconvenientes (e provavelmente respostas inquietas) é não ler.

É o meu lugar, aquele onde escrevo o que quero, o que posso, o que consigo. Onde finjo a verdade, onde verdadeiramente  (me) sinto no fingimento. Onde nada terei a quem justificar senão a mim mesma. Poderá parecer sem sentido para alguns, não me importo, não quero saber.
Tem o sentido que quero dar, tem a lógica que quero perceber, tem o motivo que me justifica. Não vou deixar de escrever aquilo que me aprouver por não querer ferir susceptibilidades, quem lê com susceptibilidades sensíveis que mude de página. Aqui, neste espaço, não terei nunca de me justificar, e se me perguntarem “Porquê?” eu responderei da maneira mais distante e infantil “Eu escrevo o que eu quiser.

Problema de Expressão

10112007467.jpgO meu problema de expressão acaba quando relembro (e tem de ser com um exercicio mental) que palavras são apenas palavras.
E estas são palavras minhas.
E que só as jogo para aqui para eu me perceber.
O meu problema de expressão acaba quando deixo de guardar para mim aquilo que não te quero dizer. Não existe medo nas palavras. Palavras são apenas palavras. E digo-te o que estou a sentir.
O meu problema de expressão acaba quando não tenho mais medo das tuas palavras. Porque palavras são apenas palavras. Não tenho medo de ouvir o que me dizes. Não existe mágoa nas palavras, palavras não são ilusões.
O meu problema de expressão acaba, quando as palavras deixam de carregar um mundo de coisas e são apenas, só e simplesmente palavras.

«Dizem que finjo ou minto
Tudo que escrevo. Não.
Eu simplesmente sinto
Com a imaginação.
Não uso o coração.
[…]
Sentir? Sinta quem lê! »
Fernando Pessoa.

Clã – Problema de Expressão

Por agora, apetece-me.

80__words_by_chokore_to.jpgApetece-me contar uma história. Daquelas que começam com o “Era uma vez…”, com muitas cores e sabores, borboletas, flores em planetas longínquos, animais que falam de coisas que o homem devia compreender. De amores apaixonados. Príncipes encantados de reinos muito muito longe.
De meninos que voam e que vivem na terra do nunca.
De fadas e princesas! E também as bruxas más, os lobos que vestem pele de carneiro, os piratas com risos estridentes.

Gostava de contar a história que aqui acaba em final feliz, num reino encantado, num lugar de magia e harmonia com prados verdejantes e alegres. Árvores que balançam na melodia do vento, flores que tocam musicas de cores e cheiros.

E a história faria sorrir, faria quem a lê agarrar-se a cada palavra como se cada respirar fundo dependesse dela. Levava a imaginação pela mão a um mundo de coisas fantásticas, de sensações frescas, de calor, ternura, carinho, pura felicidade.

Apetece-me contar uma história. Mas ainda não consigo, perco-me em todos os elementos que me acarinham o rosto e me arrepiam a pele, tropeço nas palavras, este mundo que vejo absorve-me! Está em mim esta história de finais felizes, esta roda de cores, esta loucura de sabores!
Ainda é só minha. Mas um dia partilho (com alguém).
Por agora, apetece-me.

Vejo-me aqui.

18102007366.jpgNão contigo, não quero que estejas aqui comigo.
Penso em ti. Mas já não penso só em ti.

Estou aqui, de sorriso no rosto, porque me sinto bem. Porque me sinto feliz. Coisa que até há pouco tempo pensei que fosse dificil acontecer.
Disseste-me que precisava de saber a força que tenho, precisava de saber quem sou. Tinhas razão. Eu não sabia quem era e agora estou a conhecer-me melhor.
A cada dia gosto mais de quem sou, de como estou e isso faz-me sentir leve, confiante, apaixonada.

Apaixonada?
Sim. Pelos momentos que antes não via e agora me são fundamentais, pelas pessoas que me deixo rodear, por lugares, cheiros, sabores.
Hoje vivo mais presente em mim mesma, já não me sinto ver a vida a passar por mim enquanto eu estou parada a olhar.

Descobri a minha força. Vejo um mundo diferente. Porque me vejo diferente. E não há ninguém que tenha a capacidade de me tirar daqui, deste lugar onde estou.
E descobri em mim a capacidade de fazer coisas que nunca me achei capaz.
E quando tu me procuras e eu te deixo entrar, e te sentas a meu lado, aqui neste lugar, dou-te de mim o que posso e o que quero. Dou-te o meu sorriso, a ternura, a amizade que tenho e o amor que sinto. Mas quando vais não me sinto a perder-te. Porque não te tenho, ninguém tem ninguém.
Dou-te a conhecer alguém que tu já duvidaste que pudesse existir, mas que no fundo sempre esteve aqui dentro de mim.

E a cada momento deixo de ser aquela menina.
E a cada momento tu vês-me (e eu vejo-me) mais mulher.
E a cada momento estou mais apaixonada por cada momento que passa. Contigo ou sem ti.
E cada momento é o momento e deixa de ser apenas mais um.

Hoje estou de saída…

Foto: Cidade de Faro, zona Histórica, o meu sitio mais que preferido, perto da ria.

Começou uma nova etapa da minha vida. Um dos grandes objectivos que tinha traçado cumpriu-se.Saí da casa dos pais, estou por minha conta. Trabalhar para pagar as coisinhas, estudar para conseguir ser alguém.

Estou mais perto dos amigos. Casa espectacular. Centro de Faro, perto de tudo e longe do que só deve estar longe.

Todos os dias chego do trabalho e tenho pessoas de quem gosto muito por perto prontas para o cafézinho, passeio na zona histórica, cervejinha de vez em quando num qualquer café das docas. Conversas, risos. Descontrair. É bom.

Muito bom.

(E é por isso que o Livro de Reclamações ficou tão calmo. Andei á espera que a internet conect box ficasse activa. Estava a ver o caso mal parado, mas lá consegui!)