Dicotomias

Tu fazes amor comigo, sim, quando me abraças na cama e me aconchegas no teu regaço, proteges-me com toda a tua envergadura e dizes que me amas ao ouvido.

Quando me despes e me olhas nua, mesmo quando não me sinto eu, tu desejas-me da mesma maneira (ou até mais) que no ínicio, fazes questão de me relembrar que sou sensual e apetecível – é aí que fazes amor comigo.

Quando caímos de corpos suados, sem fôlego, sem forças, invadidos pelas endorfinas de prazer que nos dá uma pedrada descomunal, o sexo a nossa droga, o amor a nossa cura – tu recuperas junto a mim e eu junto a ti, a nossa respiração que acalma no mesmo compasso e é quando cruzamos o olhar que não precisas dizer mais nada, é quando fazes amor comigo.

Tu fazes amor comigo quando me dizes “És linda” mesmo quando acho, sei ou me sinto uma desgraça.

Fazes amor comigo quando me confessas a tua tesão por mim e me fazes sentir desejada, me fazes sentir mulher, me fazes sentir tua.

Fazes amor comigo quando me revelas os teus desejos mais obscuros. Respondo-te com um sorriso provocador e tu sabes imediatamente qual será a tua absolvição e eu a minha penitência.

Na cama não fazemos amor. Se te quero dentro de mim quero que me fodas. Quero que me agarres e me tenhas para ti. Sem delicodoces, sem restrições. Tudo o que fantasiamos realiza-se entre nós, os tabus são para ficar fora dos lençóis. O romance não tem espaço entre dois corpos. Entre a nossa pele só há calor, suor, desejo e realização. Foder é a nossa profissão de fé, amar é a nossa consagração. E tu sabes disso.

Fodes-me porque me amas e eu amo-te porque me fodes.

Laboratório de Sensações


Ela recorria a ele pela segurança e tesão que ele a fazia sentir. Eram apenas amigos mas de quando em vez isso tomava a forma de uma paixão inexplorada. Era tudo novo mas ao mesmo tempo confortável e conhecido e ela gostava disso. Ele também. Os dois acabavam por não admitir um ao outro – verbalmente pelo menos.Havia algo entre eles que nunca era falado mas era certamente reconhecido por ambos. Uma verdade silenciada.
Umas vezes estava cada um na sua relação, outras só ela ou só ele e poucas vezes estiveram solteiros sozinhos. Era nesse timing que aquilo que sentiam um pelo outro tinha espaço para ser e para se manifestar. 

Aquele lugar comum inexplorado e cheio de mistério. Não se sabe como nunca chegaram a sequer equacionar uma relação, no papel tinham tudo o que precisavam, paixão, cumplicidade, tesão, companheirismo, sinceridade absoluta. Mas entre eles tudo era vivido noutra dimensão e tal rótulo nunca se enquadrou na sua conjuntura. Eles tinham uma relação sim, muito própria e definida nos seus próprios termos.

Limitavam-se a apreciar-se um ao outro nos fins de tarde na praia (pele com pele), nos passeios de bicicleta estradas fora (aventuras sem fim), nos gracejos, nas provocações, nos conselhos e divagações. Na realidade parecia que apenas um com o outro eram capazes de apreciar e viver cada segundo na sua plenitude. Que peculiares eram estes dois!

Nunca se envolveram sexualmente, esse era o limiar, que nunca fora discutido mas era aceite e estabelecido.

A primeira vez que se beijaram foi um jorro de adrenalina, acho que no fundo ambos sabiam que estavam completamente agarrados aquela sensação. Era um vicio controlado, explorado de quando em quando para não se tornar banal.

E quando se abraçavam era uma descarga eléctrica incrível. 

Ela fantasiava tantas vezes com ele. Ele sabia, pois sabia, ela contava-lhe tudo. Deixava-o a salivar. Dali a dias encontravam-se para café como se nada fosse e todo o desejo ficava subjacente. Falavam sobre banalidades e trivialidades durante horas. Pontuavam as conversas com pequenos contactos, mão na mão, um carinho no cabelo, olhos nos olhos. Adoravam aquele limbo, aquele intermédio, aquele purgatório de sensações. E só funcionava entre eles os dois, aquele lugar que era só deles. Aquele ponto de interrogação que existia entre eles e que os fazia querer explorar um ao outro, um no outro, mas que ficava quase sempre sem resposta propositadamente. Sabiam-no nas entrelinhas.

Talvez seria por isso que tudo ficava por definir. Definir é dar significado, achar um sentido, é chegar a uma conclusão. O rótulo tem um caracter tão redutor e o oeso da finitude. Não. Eles queriam continuar a explorar, a experimentar, a descobrir. Aquele laboratório de sensações era onde eles melhor aprendiam sobre si mesmos. E o desfecho desta experiência ainda estava longe de se conhecer.

“Um dia vamos juntos.”


Foi esta a promessa que fizemos um ao outro.

Teríamos ido juntos, com toda a certeza, não fosse a vida a arrancar-nos um do outro, teríamos caminhado de mãos dadas até ao horizonte. E que bom teria sido!
Mas não fomos e não faz mal. Continuamos a caminhar paralelamente, percorrendo o rio do tempo cada um na sua margem. Sem nunca deixar de olhar, sem nunca deixar de sorrir, sem nunca deixar de querer, mas nunca podendo nos aproximar.
Sendo perto ou longe as mãos não se tocam mas apoiam-se.
Se me veres cair aguardas até que me consiga levantar. Está tudo bem, tu estás aí e isso dá-me alento ao coração, dá-me alento à alma.
Partilhamos momentos mas noutro tempo, noutro espaço ou noutra dimensão. Haverá sempre o vestígio da nossa presença em cada uma das nossas vidas pois nunca deixamos de existir, só deixamos de ser. Mas continuamos a estar. A sorrir, a correr, a parar, a viver, a caminhar lado a lado, cada um no seu, rumo ao horizonte.

Um dia vamos juntos – a promessa que acabou por nunca se cumprir.

Caminho para o nada

Preciso que sigas em frente sem olhar para trás.

(Não, espera!)

Preciso que sejas mais forte que eu.

(Pára, escuta!)

Preciso que me esqueças para sempre.

(Ou nunca!)

Preciso que este momento seja o final.

(Dá-me a mão, fica!)

Quero que guardes apenas este último beijo.

(Não me deixes ir!)

Quero que sintas este último abraço.

(Por favor, pára!)

Quero que saibas que vou-te amar para sempre.

(Para sempre.)

Tens de saber que já não consigo.

(Amar-te e não ter-te.)

Tens de saber que me magoas.

(Que me partiste o coração.)

Fica a saber que não é uma decisão fácil.

(Não quero, abraça-me!)

O nosso amor poderia ter sido tanto!

(Mas não quiseste!)

Tens de perceber que no amor não há uma segunda opção!

(É tudo ou nada!)

E poderias ter sido tudo.

Não olhes para trás.

(Nada.)

A Chuva Cai Lá Fora

Silver Skinby tpphotography @Deviantart.com

A chuva cai lá fora.
O calor dos nossos corpos agita-se debaixo das mantas. A tua pele na minha pele que é tua. Desvendamos os milimetros desta paixão que se revela. A cada silêncio, a cada sorriso, a cada abraço sinto-me mais perto de ti, mais perto de mim.
Como se o vazio sempre tivesse existido com um propósito, para tu o preencheres. Como se cada passo tivesse sido guiado até chegar a este momento. O momento em que tu me olhas e me levas, como uma onda num mar revoltado, numa corrente sem destino aparente. E eu deixo-me levar porque sei que contigo estou segura.
E sigo pela tua mão de olhos vendados porque não preciso ver, apenas preciso sentir. O desejo que nos envolve, a entrega que nos abraça, a ternura que nos aproxima.
Não será preciso perguntar porquê. Não será preciso saber como.  Não me interessam todas as explicações do universo, agora, neste momento, a chuva cai lá fora, tu és meu e eu sou tua.
Absolutamente rendidos à deriva pela paixão.

Até amanhã.

Ela acorda de manhã sempre com a sensação de que lhe falta algo. Ela sabe o que é mas não diz, nem a si mesma, pelo menos tenta. Porque dói quando o nome dele soa na sua pele. Ela olha o telemóvel e aperta a mão contra os lençóis. “Não faças isso!” – pensa para si mesma. É inconsciente, ela procura-o sempre, todas as manhãs. Mas ele já não está, ou nunca esteve, já não sabe bem. Mas o esforço para contrariar esse impulso, é muito consciente, talvez demasiado. Todas as manhãs ela contorce-se e deixa o seu coração sentir saudade.

Levanta-se. Todo o peso de um dia que ainda nem começou já faz a sua alma sentir-se curvada.

Endireita-se. “Não sinto a tua falta.” – pensa para si mesma – “Não posso”.

Olha-se ao espelho e sorri a si mesma. Sente o vazio do silêncio, lava a cara. Sorri, mas nada sente.

Quando veste o soutien e puxa a alça para o ombro lembra-se de como ele passava os dedos por baixo da alça e fazia o gesto inverso. E enquanto a alça descaía ela conseguia ouvir a respiração dele à medida que ele se aproximava para lhe beijar o ombro.

Solta um suspiro em modo de gemido.

Ela sente falta. Era ele. Era ele que lhe fazia falta. Todas as manhãs, todas as noites.

E olha para o telemóvel, e não pode, não pode dizer-lhe. Então diz a si mesma: “preciso de ti”. Mas ele não responde, claro que não, ela sabe disso e mesmo assim ela espera uma resposta que não chegará.

Nunca amou nenhum homem assim. Como se cada inspiração fosse a última, magoava-a demais, mas tinha de o amar. Não tinha como não o sentir. Não tinha como não o querer. Era ele quem lhe fazia falta.

E sai de casa, entra no carro, liga o rádio do carro e tenta baixar o volume do coração.

Durante o dia tenta esquecê-lo. Quando chega à noite atira tudo para o chão, despe-se, desliga o filtro, e atira-se para a cama em silêncio. Liga a música e tinha logo de ser aquela, que a faz pensar nele. Permite a si mesma sentir um pouco mais a sua falta.

A sua respiração torna-se pesada, triste. E aquele vazio avassalador arrasta-a.

Antes de adormecer recorda-se de quando ele a beijava e lhe dizia olhando nos olhos que amava.

Uma lágrima rompe o silêncio e ela sente a sua falta. Até adormecer, e já não sentir mais nada.

Até amanhã.

 

A saudade do que não ficou

A saudade aperta-me o coração desde o nosso último beijo. E não é só do beijo que sinto saudade é de tudo o que foi dito nele. A paixão não precisa de palavras, anseia por esses silêncios em que falamos com a alma.
A saudade aperta-me o coração desde a nossa última troca de olhares. E não é pelo teu olhar que sinto saudade. É por aquilo que me dizes quando me olhas nos olhos. Enches o meu coração, aqueces a minha paixão, é um desejo ardente que tem de SER.
A saudade que tenho de ouvir a tua voz aperta-me o coração. A tua voz preenche a essência do meu ser, confirma aquilo que sinto que sentes e que sentes que sinto.
Contigo sinto-me completa. Em ti sei que é o meu lugar. Em nós descobri a certeza.
E quando me abraças forte sinto a paixão a romper-me o peito. E quando me beijas sinto o desejo a rasgar-me a pele.
E quando suspiras ao meu ouvido sinto o amor a envolver-me os sentidos. E quando vais embora resta a saudade.
A saudade do que não ficou.