Universos Paralelos

O universo é infinito.
É um pensamento doce e assustador.
É apaziguador pensar que algures numa outra realidade, num outro universo, eu e tu fazemos parte um do outro e nos perdemos na infindável essência da nossa paixão.
Noutro universo a realidade não é esmagadora e o timing é perfeito. E o segredo que nos une, que só nós compreendemos, nos envolve a cada hora do dia. E fazemos parte em vez de estarmos à parte.
Conhecer-te foi a partida que este universo me fez. Mostrou-me que existes e que és possível mas a conjuntura está toda errada. Mas só por isso sou feliz. Por ter tido a sorte de tocar num ponto de luz e sentir o seu calor, mesmo que por instantes.

Sabes?

Portimão de Ferragudo

Sabes quando por vezes passas num lugar e és catapultada no tempo e no espaço? E o teu coração aperta um bocadinho. E tu sentes aquele nó na garganta. Daquele beijo trocado. Do abraço. Da voz dele que ecoa no teu peito. E fechas os olhos com tanta força, porque queres que essa memória não fuja. E abres os olhos e ele está ali, mas não está. E sentes todo esse fogo que te queima por dentro. E ardes na fúria que te consome no peito. Quase que sentes o seu cheiro. E sentes as mãos dele que te puxam. E tu sabes que queres ir mas tens medo. E cerras os olhos com força. Não queres voltar a sentir aquilo que só tu sabes o que é. Uma paixão tão boa que dói. E está mesmo ali, adormecida debaixo da tua pele. Faz-te muita impressão. E tu até pensas que é outra coisa que te incomoda, mas não… é aquele animal que vive dentro de ti mas ninguém conhece. Só ele. Ele sabe quem tu és mas ao mesmo tempo não sabe. E tu desesperas. São gritos sem voz aprisionados dentro de ti, naquele momento em que respiras fundo e engoles a saudade em seco. Às vezes preferias não recordar mas… tu sabes que não queres nunca esquecer. A maneira como ele te fazia sentir mulher e ao mesmo tempo menina. Como foi bom e como doeu ao mesmo tempo. Quando ele te disse que te amava e tu… sabias que o amavas. Mas continuas a sentir aquele desespero.  Como se ele segurasse o teu coração e o apertasse demasiado. Sabes quando passas nesses lugares que têm o vosso nome escrito por todas as paredes, pedras de calçada, grãos de areia. E mais ninguém vê, só tu e ele. Por mais tempo que passe. E cerras o punho  prometendo não pensar mais nisso. Mas não consegues. Porque quando viras na outra esquina sabes que foi ali que ele também olhou para ti. E tu sabias mas nada disseste. E  assim desapareceu com a brisa. E tu continuaste. Sabes?

Palavras Para Quê?

Daquela vez só te queria dizer que só quero que sejas feliz. Não deu para o seres comigo, nem para eu o ser contigo. Mas podes ser feliz, eu quero que sejas. Quero ver-te feliz. Quero saber-te com alguém que te ama, que te pode dar aquilo que procuras e principalmente aquilo que precisas. Há algo que por dentro de mim se contrai quando te imagino com essa pessoa. Essa pessoa que correspondeu às tuas expectativas. Mas o sentimento de te querer bem é maior. É só porque o tempo passa para ambos e ainda penso em todos aqueles momentos que partilhamos e que desejamos que fossem prolongados indefinidamente. É normal que as memórias de uma paixão que me abalou o mundo teimem em surgir sem convite. Não as relembro com pesar, arrependimentos ou queixume apenas com um sorriso. Logo a seguir questiono-me se também a ti. O tempo fá-las desvanecer. Imagino-te feliz e com alguém que te segura pela mão, te olha nos olhos e diz que te ama, te rouba um sorriso, um beijo e um abraço. Lembro-me desse sorriso, desse beijo e desse abraço, guardá-lo-ei para sempre. Guardar-te-ei para sempre.

Uma Música Que Alguém Me Deu – II

Por vezes na vida perdemos fé nas pessoas, na capacidade de resistência da amizade. Tomamos pessoas e sentimentos por garantidos. E existem aquelas pessoas, talvez uma mão cheia, talvez menos talvez mais, que levantam de novo o véu do que é uma das emoções que sobrevivem tempo, muros de pedra, nuvens cinzentas, silêncios obscuros, felicidade extrema.

De repente a vida atira-nos com as verdades na cara para que não nos esqueçamos que nem tudo é cinzento escuro efémero e fútil. Aquelas pessoas que sabemos que serão as vigas da nossa existência e nós das delas, que sem elas não existiríamos como existimos, que não seriamos quem somos. Que fazem mais do que parte da nossa vida. Tornam-se parte da nossa personalidade, parte da nossa existência, parte do nosso ser.

As pessoas que representam a amizade absoluta, “no matter what“. Com quem rimos, sonhamos, convivemos, vivemos, sobrevivemos, aprendemos. Que nem sempre sabem o que nos dizem, que também não são perfeitas, que nos ensinam a nossa falibilidade. Que nos dão a mão, a quem damos a mão. Que fazem parte dos nossos segredos. Fazem parte dos nossos medos. Com quem choramos. Que confortam o nosso coração. Que nos dão uma tareia se for preciso. Que nos mostram o outro lado, o lado de fora, o que não é bem assim, a imagem completa. Que nos tiram da nossa caixinha fechada e nos jogam um balde de realidade gelada. Que são uma outra forma de amar. Que nos mostram a outra parte de nós, a parte que só eles vêm e nós não,  o espelho.

E que, mesmo longe, mesmo ausentes, mesmo silenciosas, abrem caminho até nós quando for preciso.

Os amigos que nos ajudam a sobreviver. Os amigos que facilitam o viver. Aquele punhado de pessoas das quais não abririamos mão. Os verdadeiros sinceros “no matter whatamigos.

Uma Música Que Alguém Me Deu – I

Naquele dia o J. veio me buscar.
Durante a travessia do Tejo o meu coração sofria arritmias agressivas.
Os seus beijos faziam-me saltar uma batida. O seu olhar acelerava-me os batimentos por segundo.
Por instantes o meu olhar fugia para o horizonte e fitava as margens do rio. Quando pensava na realidade o meu coração quase parava. Tínhamos construído uma ilusão em que ambos acreditavamos. Aquele mundo só existia se estivéssemos juntos e quando estávamos tudo ameaçava implodir sobre os nossos peitos. Julgava eu que já tinha conhecido a Paixão. Estava eu tão enganada. Ao subirmos a colina de carro, na minha garganta formava-se um nó. O início do fim. Cada começo significava mais um adeus. Porque não éramos um do outro, na verdade, faltava a realidade. Na nossa fantasia, seríamos eternamente apaixonados, juntos à luz do dia. Por mais que o sol brilhasse crescíamos nas sombras – aquele sentimento temia a luz. E a nossa ilusão protegia a Paixão, dava-lhe resguardo, como uma gruta aos seus morcegos. A música tocou na rádio e J. aumentou o volume:
“É a nossa.”
Ouvi sem desviar o olhar para ele. A ansiedade calou-me a voz.
Aquela música que tocou no dia em que nos conhecemos e soubemos, logo aí, no primeiro olhar, que estávamos condenados. Tínhamos encontrado juntos um problema. Um impasse. Um desvio que nos levou ao êxtase. A um beijo secreto numa praia da Costa da Caparica em noite de lua cheia.
Uma encruzilhada. Um “e agora?”.
E agora? Era o que queria perguntar. No entanto olhei para ele respirei fundo e sorri. Suspirei, deixei-me levar e disse-lhe “Tive saudades tuas”. Senti o mundo parar. A música ficou para sempre nossa. A paixão também.

Aconteça o Que Acontecer

Todos os dias o meu olhar perde-se no vazio da tua ausência.

Prendo-me na escuridão de uma sala vazia, de um pedaço que falta.

Vagueio pelas memórias que ainda permanecem em mim, percorro uma a uma para não as perder pois são tudo o que resta da tua presença em mim. Todo o meu corpo reaje quando te encontro de novo, parece que começo a viver, a sentir a respiração, o calor que percorre desde o meu coração – calor que já foi teu e que desconfio que sempre será.

Sinto-me como um castelo abandonado, outrora conquistado por um nobre cavaleiro que nele travou guerras de amores e desamores. Cavaleiro que passou mas deixou todas as marcas da sua existência, moldou as paredes e a alma do castelo tornando-o para sempre dele. Agora que não estás aqui, quem me visita é o vento, a brisa de uma memória distante.

O cheiro da saudade impregna todas as paredes deste castelo, que mesmo podendo ser habitado por outros, terá sempre a tua presença.A angústia dá o tom sombrio, existem sítios que nem o mais corajoso explorador quer visitar. Ergueram-se muros altos em lugares que nunca ninguém chegará, permanecerão para sempre intocados, permanecerão para sempre fiéis à tua presença chorando a tua partida. Haverá em mim lugares escuros e vazios que serão sempre teus, aconteça o que acontecer.

Uma Sombra Sem Reflexo

cracked texture by =Moondustdreams

Ela sentou-se a seu lado no chão e perguntou:

– “Lembras-te de quando era Feliz?”

Ele olhou para ela ternamente e respondeu:

– ” Eu lembro-me de quando tu eras presente. – Ouviu-se uma pausa carregada de silêncio – Feliz ou infeliz eras presente.

Ela fitou o chão e o seu olhar vazio fixou a pequena fractura no soalho.

– Tenho falhas… – disse ela.

– Todos temos falhas, todos temos pontos fracos, todos podemos cometer erros.

– Não compreendes. Estou danificada para além de qualquer reparação possível. Defeitos de fabrico, deveria estar num qualquer armazém escuro quieta e esquecida.

– Tu é que não compreendes. Tu estás a afundar-te naquilo que apenas é uma pequena parte de ti mas que te faz ser quem tu és. Faz-te ser quem és mas não te define! Eu já vi quem tu és e continuo a ver, apesar de estares algures aí perdida nessa tua cabeça, sei que és mais.

Ela olha-o de cabeça baixa com dúvida no seu olhar.

– Todos nós temos as nossas fracturas que nos fazem conhecer e duvidar a escuridão existente em nós, mais do que isso definem aquilo que temos de bom, pois fazem-nos aprender a viver e supera-las, fazem com que conheçamos aquilo de que somos feitos para além do bem danificado. Para nos vermos como um todo também temos de conhecer essas falhas e aceitá-las. Mas não podemos apenas e só saber as nossas falhas. Já te vi na tua luz, tu também.

Ela continua a fitar a fractura que atravessa o soalho e solta uma pequena gota que lhe humedece o rosto e inunda precipitadamente aquele precipício microscópico.

– Conheço bem demais o negrume que existe em mim e ao mesmo tempo nada sei sobre ele. Simplesmente deixo-me perder e levar. Faz-me querer estar longe pois não sei quem sou nem sei quem ser. As pessoas fazem-me ver que é esperado de mim alguém e algo que não reconheço! O meu reflexo nas pessoas é vazio e silencioso. Menos que uma sombra, sou invisível.

– Só tu te tornas invisível. Não são os outros. Eu vejo-te, mesmo que não queiras. Só tens de deixar as pessoas entrar. Tens de me deixar entrar.

Ela permanece em silêncio fixando o mesmo ponto infinitamente. Ele levanta-se e coloca a sua mão tapando aquilo que ela olhava. Ela levanta o olhar que se encontra com o castanho profundo dos olhos dele.

– Tens de para de concentrar a tua atenção nas falhas, no que não está bem. Olha em volta, existe muito mais para além disso. Formas, cores, texturas que em conjunto com as falhas formam um todo que se torna completo, belo, iluminado. Como neste soalho.

Se apenas fixares a falha apenas vês a falha e perdes tudo o que acontece em volta e que torna as coisas especiais! Se não olhares á tua volta não conhecerás para além da escuridão, não verás aquilo que já vi em ti, o que te faz especial, inesquecível. Aquilo que marca as pessoas, os lugares e o tempo quando entras numa sala. Se não te vês a ti mesma ninguém te verá também. Por isso pensas que estás só quando na realidade não estás e que está mesmo a teu lado acabará eventualmente por sair. E aí a escuridão tornar-se-à real. Mas ainda estás a tempo! Não estás sozinha, ainda.

Ele levanta-se e agarra na mão dela. Puxa-a para cima junto do corpo dele.

– Eu apenas posso dar-te a mão mas não te posso fazer enxergar. Só tu consegues sair dessa sombra.