Já não sei amar da mesma maneira.
Aqui sentada na cadeira da varanda, enquanto a brisa sopra quente, os sons de fundo se desvanecem, o fumo do cigarro me envolve. Aqui sentada sei e sinto que já são sei amar como dantes. É essa a minha sentença, a minha verdadeira doença, crónica e terminal:
Um vazio de alma constante, invariável.
Já não sei o que é o amor.
Tentei de todas as formas, senti de todas as maneiras, eliminei toda a lógica. O amor que foi já não é mais.
Acho que senti demais. Quando o amor acabou, esmoreceu ficou um nada tão tenebroso que consome todo o espaço. Não deixa espaço para amar igual, amar mais. O espaço do amor é cada vez menor. E por isso já não sou capaz de amar da mesma maneira.

Nota mental: sobre o amor e a vida

Á medida que o tempo passa percebo que a solidão está em cada sorriso, em cada abraço, em cada confissão. Todos desejamos a epítome da felicidade: estar com alguém e ser alguém.
Todos procuramos o nosso papel a cumprir, nem tanto o final feliz, mas o propósito. Porque estamos aqui? O que somos para os outros? O que és tu para mim? Sim.
Estou eu aqui para quê senão para amar?
Amar é, para mim, a epítome da felicidade.
Ao amar cumprimos o nosso papel, deixamos a nossa marca no mundo. E não é isso que no fundo ansiamos? Não nos deixar esquecer, não sermos esquecidos. Não ser esquecida.
Se alguém me amou e eu amei alguém deixei a minha marca infinita no universo.
Amar: uma pessoa, várias pessoas. De várias maneiras, amar o mundo, a casa onde se vive, a aldeia onde se cresceu, os animais que nos acompanharam, amar a vida.
Respeitar a vida.

A solidão está em cada sorriso sim. Em cada abraço. Em cada confissão. Porque ao partilharmos o nosso mundo deixamos de estar sós. Ao convidar os outros a entrar, a ouvir as nossas histórias, a conhecer as nossas diferentes formas de rir e de chorar – deixamos de estar sós.
Se eu me partilhar deixo de estar só.
Quando amamos já não somos invisíveis.
E nossa história ficará para sempre escrita no coração de alguém.

Nota Mental

Não é fantástica a sensação de quando dás a mão a alguém enquanto te puxa para um abraço apertado e demorado e de repente percebes que, naquele momento, nada mais interessa, o tempo fica suspenso, as cores mais vivas, o coração acalma, não ouves mais nada senão a vossa respiração sincronizada?

E sentes que é tanto que nem parece real e o teu corpo contrai-se porque não queres que acabe!

Todo o infinito cabe nesse beijo que trocam, as leis da física já nem se aplicam. Toda a vossa matéria e toda a vossa essência se concentra naqueles minutos e alguns segundos que duram para sempre.

Não é fantástico?

Contigo sim.

Não tenhas medo da chuva lá fora.

Chuva Lá Fora

O mundo não acabou pois não? É só mais um passo. Pensas que caíste no abismo, mas não, na realidade afastaste-te dele. Sei que não o parece agora, mas é a verdade.

(Abraça-me)

Não sentes? Parece até que já respiras melhor. Não tenhas medo. Pensas que estás sozinha mas não estás. Estavas antes, agora não. Agora consegues ver quem está lá fora? Abre o teu coração e deixa-te sentir. Já não precisas mais erguer muralhas para te protegeres. Já estás cá fora. À chuva! Não é fantástico?
A maneira como sentes a vida a escorrer-te pela cara? Não penses que são lágrimas de tristeza, não são! São as gotas de chuva que te acordam para um outro mundo, um que existia cá fora mas tu tinhas medo de sair!
Tens frio? Eu sei… por momentos pode tirar o fôlego. Mas não temas. Eu estou aqui e tu estás aqui! Ouviste? TU. Tu estás aqui!
Saíste. Tentaste. Fizeste. Lutaste.
Não. Não baixes a cabeça, escuta-me! Ergue o teu olhar e sente! Vê e sorri!

Vive mais um pouco! Fecha o guarda-chuva e corre! Não precisas de abrigo, precisas de espaço para voar!
Sai! Escapa-te! Ama e ferve! Já podes voltar a sentir. Já podes voltar a ser!
Não tenhas medo da chuva lá fora!