Rascunhos – II

Nós estivemos lá e eu não te abracei como queria. O medo interrompeu o beijo que se aproximava. Os nossos corações sentiam-se, as batidas intercaladas, apressadas pela adrenalina, descompassadas pelo medo. Medo de dar um passo em falso, sair do conforto, descobrir a paixão…desvendar a dor. O medo que antecipa o sofrimento e adia a felicidade. Que me impede de te amar sem pressas. O medo gasta o fôlego, delapida a vida. Rouba-te pedaços da tua existência que poderás nunca vir a recuperar.

Devia ter feito frente ao medo, mas não o fiz.

Devia ter encarado a paixão, mas não o fiz.

Devia ter tomado as rédeas do desejo, mas não o fiz.

Podia ter-te abraçado como queria, mas cedi ao medo.

Olhei-te nos olhos e tu sorriste ternamente. Acho até que me envolveste com ainda mais força nos teus braços. Beijaste-me na testa e disseste “um dia casamos aqui”.

Dicotomias

Tu fazes amor comigo, sim, quando me abraças na cama e me aconchegas no teu regaço, proteges-me com toda a tua envergadura e dizes que me amas ao ouvido.

Quando me despes e me olhas nua, mesmo quando não me sinto eu, tu desejas-me da mesma maneira (ou até mais) que no ínicio, fazes questão de me relembrar que sou sensual e apetecível – é aí que fazes amor comigo.

Quando caímos de corpos suados, sem fôlego, sem forças, invadidos pelas endorfinas de prazer que nos dá uma pedrada descomunal, o sexo a nossa droga, o amor a nossa cura – tu recuperas junto a mim e eu junto a ti, a nossa respiração que acalma no mesmo compasso e é quando cruzamos o olhar que não precisas dizer mais nada, é quando fazes amor comigo.

Tu fazes amor comigo quando me dizes “És linda” mesmo quando acho, sei ou me sinto uma desgraça.

Fazes amor comigo quando me confessas a tua tesão por mim e me fazes sentir desejada, me fazes sentir mulher, me fazes sentir tua.

Fazes amor comigo quando me revelas os teus desejos mais obscuros. Respondo-te com um sorriso provocador e tu sabes imediatamente qual será a tua absolvição e eu a minha penitência.

Na cama não fazemos amor. Se te quero dentro de mim quero que me fodas. Quero que me agarres e me tenhas para ti. Sem delicodoces, sem restrições. Tudo o que fantasiamos realiza-se entre nós, os tabus são para ficar fora dos lençóis. O romance não tem espaço entre dois corpos. Entre a nossa pele só há calor, suor, desejo e realização. Foder é a nossa profissão de fé, amar é a nossa consagração. E tu sabes disso.

Fodes-me porque me amas e eu amo-te porque me fodes.

Caminho para o nada

Preciso que sigas em frente sem olhar para trás.

(Não, espera!)

Preciso que sejas mais forte que eu.

(Pára, escuta!)

Preciso que me esqueças para sempre.

(Ou nunca!)

Preciso que este momento seja o final.

(Dá-me a mão, fica!)

Quero que guardes apenas este último beijo.

(Não me deixes ir!)

Quero que sintas este último abraço.

(Por favor, pára!)

Quero que saibas que vou-te amar para sempre.

(Para sempre.)

Tens de saber que já não consigo.

(Amar-te e não ter-te.)

Tens de saber que me magoas.

(Que me partiste o coração.)

Fica a saber que não é uma decisão fácil.

(Não quero, abraça-me!)

O nosso amor poderia ter sido tanto!

(Mas não quiseste!)

Tens de perceber que no amor não há uma segunda opção!

(É tudo ou nada!)

E poderias ter sido tudo.

Não olhes para trás.

(Nada.)


Tenho saudades das tuas mãos. Oh meu deus, como tenho saudade das tuas mãos. E eu que nem sou religiosa sinto necessidade de usar esta expressão para dizer o quanto tenho saudades das tuas mãos! 

O vento sopra com força e o cabelo esvoaça loucamente, eu sorrio-te enquanto tu carinhosamente desvias o meu cabelo da cara e me beijas. Como tenho saudades dos teus lábios. Não consegui mais sentir o que sentia contigo quando me beijavas. Cuidadosamente prendes o meu cabelo por detrás da orelha. Beijas-me o pescoço e todo o meu corpo treme. Suspiras ao meu ouvido “adoro-te” mas eu sei que amas. Eu sinto que me amas. Quando me abraças e me puxas bem junto para ti, do cimo do monte, à beira do precipício, vista rio, cheiro a mar. Tu brincas: um dia vamo-nos casar aqui e ris. 
Eu sorrio e encosto a cabeça ao teu peito, junto ao teu coração: eu sei que tu me amas.

E há melhor sensação no mundo?

Só mesmo quando me atiras para a cama, despida de corpo e de alma e me mostras que me amas.
“Adoro-te, ouviste? Adoro-te!”

Eu ouço-te, desde a alma. E acredito, não tenhas dúvidas! As tuas mãos passeiam-se pelo meu corpo, brincam, pululam, provocam. E eu adoro as tuas mãos, o teu toque, o teu jeito, o teu beijo.

Adoro quando me amas e adoro quando me fodes. 

Os nossos corpos fundidos, as nossas almas entrelaçadas, a nossa mente delirante de tanto prazer, os nossos corações em uníssono. 

É lamechas mas que se lixe! É a verdade: mais ninguém me fez sentir como tu, me amou como tu, me fodeu como tu.
E ás vezes, tantas vezes, inesperadamente, sinto saudade. 

De ti. De tudo. De nós. 

Incenso

Chegas e atiças-me fogo com a tua chama. Entro em combustão de dentro para fora e de fora para dentro. És a minha pele, estás na minha pele que queima violentamente, descontroladamente.
Deixas-me assim a consumir-me pelo teu fogo, lentamente, como um incenso que vai dissipando a sua essência.
É assim que me queres? Consumida por ti, febril, na brasa lenta da tua tesão.
Consegues sentir? Porque eu sinto-te a entrar em cada poro, cada milímetro do meu corpo responde a ti. Submete-se a ti. Consome-se por ti. Espera por ti. Pacientemente, ansiosamente.

Apaixonadamente.

 

A surdina dos dias intermináveis

Sem ti o meu coração esvazia. Apenas se escuta um murmúrio. As horas passam lentas e vagarosas e a tristeza assombra-me, como a escuridão numa casa vazia. Eu já nada sinto e sem ti já nada tenho.

E imagino dias assim a desdobrarem-se até ao infinito. Talvez lá mais à frente a tristeza já esteja também distante. Mas isso é depois, não é agora. Agora estou endurecida pela mágoa, pela quietude inquieta da distancia, o medo que paralisa, o silêncio que fere, as palavras que rasgam, as lágrimas que caem, o vazio que sufoca, a ilusão que medra e molesta. A ilusão não existe, mas a sua presença é tão real, demasiado até, porque corta e dilacera e faz questão de rir na minha cara, me mostra o quão surreal é este querer.

E eu páro, deixo de sentir, deixo de querer, deixo de ser, torno-me passageira no comboio da indiferença que me leva a alta velocidade para o nada. Cada vez mais sei que o nada é o destino final.

O nada dói. O nunca dói.

Amar-te arrasta-me para as profundezas de um impossível.

 

 

Se me disseres “Vem” eu fecho os olhos e vou.


Se me disseres “Vem” eu fecho os olhos e vou. A paixão tem destas coisas, acções inconsequentes, escolhas impulsivas, palavras ditas a quente. E eu vou, sem pensar, vou ao teu encontro porque é o que o meu coração mais anseia. E quando estou apaixonada não consigo não cumprir o que o meu coração me manda. Ele dita e eu escrevo, todas as palavras são sempre tuas ou por ti ou contigo.

Até na minha mente, na sede do racional, o teu nome, o teu toque, tu, causam o caos. Não há racional que resista a esta paixão que sinto por ti.

E mesmo que saiba que não posso, ou que não devo, que não tenho, que não fico, eu fecho os olhos a todos os Se e Mas, e vou. Vou até ti. E sigo com a respiração em suspenso e só quando me beijas é que recupero o fôlego. Por isso consegues imaginar a minha ansiedade, se só consigo recuperar o fôlego junto a ti, se só consigo respirar contigo.

E quando me tocas roubas-me todas as palavras e arrancas-me os pensamentos. Não consigo mais nada a não ser estar em ti. Entro em êxtase, em plenitude, em zen, em nirvana…chamem-lhe o que quiserem.

És tu.

És tu que fazes todo o sentido em mim, mais ninguém, só tu.

E é por isso, só por isso e por tudo isto, que se me disseres “Vem” eu fecho os olhos e vou.

 

Ponto de Não Retorno

Só sabemos que estamos perante “life changing moments” quando esses momentos já passaram por nós. E de repente já estamos a olhar para trás.


[Explícito]

Se há momentos raros são os momentos em que há uma pessoa que te toca de tal maneira que o sexo é “life changing” e de repente se torna um ponto de não retorno. Tu sabes que dali tens de trabalhar muito (ou ter sorte) para atingir aquele “gold standard”. E este tipo de sexo não se limita a 2 ou 3 factores. É fruto de uma conjuntura muito especial e difícil de replicar. “The perfect storm”.

Quando te beijei pela primeira vez soube que, naquele momento, estava traçado entre nós um alinhamento muito especial, que nunca até ali, até me beijares, teria sentido com mais ninguém.

E soube quando me viraste contra a parede, naquele quarto de hóspedes, quando me agarraste pela cintura, me desapertaste as calças e enfiaste a tua mão dentro das minhas cuecas, que aquela noite ficaria marcada debaixo na minha pele, como uma tatuagem de emoções, prazer, paixão. Toda a minha vida esperei por ti e não o sabia, um homem que me fizesse abdicar do controlo e me guiasse numa jornada de prazer. Finalmente podia apreciar o melhor sexo que já tive, mas ainda não o sabia.

Ainda.

Eu já estou encharcada enquanto me tiras a blusa e continuas a pressionar-me contra a parede, de costas para ti. Consigo sentir a tua tesão quando te roças em mim só para me provocar. Tiraste o cinto das calças, ainda vestidas, e envolveste a minha cintura com ele e prendeste-me a ti. Eu sorri, queria contrariar-te só por despeito, mas tu sabias e eu sabia, que ali sou tua, de qualquer maneira.

Seria a primeira vez que estávamos juntos, depois do beijo. Juntos, sozinhos, entregues um ao outro. Ainda não conhecíamos o corpo um do outro, aquilo que me faz gemer, aquilo que te faz tremer. Mas estou aqui para descobrir, para te descobrir além das palavras.

Alguma vez sentiram tanta excitação, tanta tesão que até dói? Como se a minha cona estivesse a contorcer-se a cada toque teu, desejando que me penetrasses sem dó nem piedade.

E as palavras que me sussurravas ao ouvido, faziam-me vibrar. Eu acho que todas as paredes estremeceram, até os vizinhos ficarem um pouco embaraçados pois estavam a presenciar algo transcendental e nem sabiam, ouviam com toda a certeza.

Tal como o nosso primeiro beijo, mal podia acreditar no que tinha acabado de acontecer, quando de repente me puxaste para ti e simplesmente nos completámos. Nunca tinha sentido um invasão de sensações por todo o meu corpo como quando me beijaste naquele jardim. Era completamente novo, incrível e assustador ao mesmo tempo. Fizeste questão de me fazer saber da tua tesão, conseguia sentir o teu caralho duro na minha mão por entre as calças. Acho que nunca tinha desejado tanto alguém e me sentido tão desejada.

E esse desejo concretizou-se. Quando senti a tua tesão a deslizar para dentro de mim, foi um furacão de emoções. Sexo, desejo, paixão, fogo, medo, euforia, ansiedade. Tu sempre me deixas fora de controlo, quando estava perto de ti nunca sabia como me sentia ao certo, és um misto de dor e prazer.

Fodemos, amamos, dormimos, ficamos em silêncio, trocamos palavras. Nunca soube bem o que te dizer, contigo fico num estado de transe. Tu fazes despertar um lado em mim que até ali não tinha a certeza que existia, mas agora sei que só consegue subsistir contigo, perto de ti. Em parte isso assustou-me, era o desconhecido, senti que estava a perder o controlo. Mas depois percebi que te estava a ceder o controlo e deixei-me levar por ti.

A maneira como me puxas o cabelo gentilmente quando me penetras por trás. A maneira como sabes fazer sentir-me mulher, sensual. Só quero poder retribuir-te em prazer tudo aquilo que me fazes sentir. Só quero mostrar-te que ali sou tua. Apenas tua.

Até adormecermos exaustos, num momento tão efémero. Orgasmo após orgasmo. Para mais tarde percebermos, que a partir daquela noite, não há como dar a volta.

Aquela noite foi o ponto de não retorno.