Sempre me debati com esta sensação de vazio que ás vezes tenho, a quem estou a tentar enganar…? Eu tenho comigo este vazio sempre, ás vezes é que me permito senti-lo. E todas as vezes me questiono sobre a sua causa. Ás vezes chego mesmo a pensar que sei mas grande parte das vezes nunca chego a nenhuma conclusão.

Será falta de alguém?

Será falta de fazer alguma coisa?

Será falta de sentir alguma coisa?

Será alguma coisa pela qual eu já passei e não cheguei a processar?

O que falta?

Ao inicio pensei que era algo que estava por acabar. Os assuntos inacabados sempre me trouxeram muita ansiedade, primeiro porque odeio quando fica algo inacabado. Corrói-me o cérebro (e o espirito). Segundo, porque sempre me assombraram. E parece que ficou tanto por acabar nesta minha curta presença na terra.
Ficaram coisas por dizer a muitas pessoas. Ficaram objectivos por atingir. E na mesma segui em frente, nunca direi sem olhar para trás, porque irei sempre olhar par trás. Mas segui em frente. Será isto que eu carrego, o peso do que ficou por fazer ou dizer? Talvez lhe chame vazio porque parece tão mais romântico, mas não é. Talvez seja é o peso do que ficou em suspenso.
E a partir daí eu penso para mim mesma quais são as razões que me levaram a seguir em frente? Quais são as justificações que eu dei a mim mesma? Quais os argumentos? Porque é que eu não me lembro… Porque volto sempre a pensar nas circunstâncias da vida? A conjuntura é que não me permitiu ou será que fui eu que não fui capaz? Serão desculpas ou simples e duros factos? Será que algum dia vou voltar a saber?… Sim…porque eu já soube algumas destas respostas, mas agora, neste momento, não sei. (Ou pensava que sabia!)

Não sei. 

Como estas duas palavras se tornaram recorrentes.
“E agora o que vais fazer?” Não sei.

“Já escolheste?” Não sei.

“Vais dizer-lhe?” Não sei.

“Vais voltar?” Não sei.

Outra vez algo que me assombra e que me irrita.

Se ouço estas palavras da boca de alguém enervo-me. Deve ser porque as ouço todos os dias dentro de mim.

E porquê? Não sei.
Uma vez alguém me disse algo que nunca esqueci e que fez todo o sentido:

“Se não decidires tu mesma, alguém irá fazê-lo por ti.”

E é verdade. Quantas das nossas escolhas são apenas a aceitação do que alguém directa ou indirectamente decidiu por nós? – isto daria panos para mangas, mas por enquanto estou noutra camisola
Umas vezes olho para mim e sinto que já conquistei tanto, sinto-me orgulhosa por tudo o que passei, bom ou mau, por tudo o que aprendi (ás vezes da pior maneira) e sinto-me grata por tudo o que tenho: fisico, mental e espiritual.
Outras vezes não tenho tanta certeza. Olho para trás, olho para a frente, olho para mim e pergunto-me o que estou a fazer agora. O que estou a fazer aqui? Qual é o meu propósito?

Será só isto? É esta a minha marca indelével? Estarei aqui apenas para ser mais um conjunto de átomos que anda e fala?

Se eu desaparecesse neste momento, será que alguém sentiria a minha falta? Eu pergunto-me isto tantas vezes. E muitas vezes sei que sim e outras vezes vezes não tenho tanta certeza.
Estas dúvidas aprofundam ainda mais este abismo que há dentro de mim.

Sinto que ninguém é capaz de me ver verdadeiramente. E estou sozinha.

Mas será que é mesmo isso que eu quero, que alguém me veja no meio do vazio, verdadeiramente, tal como sou? Não sei? Será que vêem o mesmo que eu? Será o reflexo de mim noutros olhos algo que EU realmente quero ver?

E fico no vazio, sozinha, com dúvidas, com medo.

E no vazio eu não sinto nada e não chego necessariamente a uma conclusão. Como chegaria? Estou a debater comigo mesma.

E continuo a caminhar. Um passo a seguir ao outro. Um dia de cada vez. Ás vezes dormente por escolha, outras porque simplesmente tem de ser assim.
Vou chegar a algum lado? A alguma resposta? Não sei.

Eu achava que as respostas anteriores estavam certas mas o caminho mostrou-me que não.

E, não me entendam mal, eu sei que posso ser feliz. Eu sei o que é isso. Mas…muitas vezes, não sei como, se quero, se serei capaz.

Já não sei amar da mesma maneira.
Aqui sentada na cadeira da varanda, enquanto a brisa sopra quente, os sons de fundo se desvanecem, o fumo do cigarro me envolve. Aqui sentada sei e sinto que já são sei amar como dantes. É essa a minha sentença, a minha verdadeira doença, crónica e terminal:
Um vazio de alma constante, invariável.
Já não sei o que é o amor.
Tentei de todas as formas, senti de todas as maneiras, eliminei toda a lógica. O amor que foi já não é mais.
Acho que senti demais. Quando o amor acabou, esmoreceu ficou um nada tão tenebroso que consome todo o espaço. Não deixa espaço para amar igual, amar mais. O espaço do amor é cada vez menor. E por isso já não sou capaz de amar da mesma maneira.

Sem mim.

Preciso de falar contigo, consegues ouvir-me? Sim? Ah…

Só queria saber se para ti foi tudo um jogo? Se eu fui uma apenas uma conquista ou até uma mera distracção… Se os teus beijos eram teatro e as tuas juras de amor uma manipulação. Se o meu coração apenas te serviu de entreposto enquanto estavas de passagem.

Estou? Estás a ouvir-me?

Devias ter escolhido o silêncio em vez de dizeres que me amavas, tal como o estás a escolher agora. Não tens resposta ou não queres responder?

Quantas vezes me quis ir embora e tu não deixaste disseste que precisavas de mim. Agora percebo, precisavas de mim para construíres o teu mundo fantasioso paralelo à tua realidade. Mas a tua ilusão era a minha realidade, sabias?

Agora olho-te de longe e nem sei quem és. Fui eu que sonhei ou tu que imaginaste?

Que pessoas fomos nós? Altamente indiferentes ao mundo lá fora… Eu não era eu e tu nem sei, foste alguém que não tu e de repente deixaste de existir. E eu também. Quando deixaste de existir deixei de ser a mesma pessoa e o amor já não era a mesma coisa. A paixão via-me com outros olhos. Deixei de sentir até tudo ficar dormente até deixar de sentir toda a dor e mágoa que restou quando detonaste a minha realidade e abandonaste a tua ilusão. Quando viraste as costas, sorriste, desapareceste, sem rasto, sem memória, sem…mim.

Desolação

Vagueio por esta noite negra incessante. Esta noite negra que não me abandona. Não há estrelas, nem há lua, não há luz.
Apenas a desolação do negrume.
Invade-me de dentro para fora, sinto-a a corromper-me. A corroer-me. Como a ferrugem corrói o ferro, transforma-o em pó vermelho de nada.
A minha alma despedaçada nesta noite e não encontro os seus fragmentos.
Oh desespero!
Já experimentaste gritar no vazio?
Eu já.
Ninguém te ouve. Não há eco, o som é consumido pelo vácuo.
Não há som, não há luz. Só eu na noite.
Carcaça vazia de alma ferrugenta.
A apodrecer lentamente,
dolorosamente,
solitariamente
no vácuo da noite.

O ciclo vicioso do vazio.

Estranha forma de sentir – esta incompletude, este vazio, esta falta de qualquer coisa que me impulsiona a estar sempre à procura de algo que não sei o que é, não sei onde está.

Por fora os parâmetros quotidianos são o que me fazem circular por mais um dia. A rotina, o trabalho, o sorriso mecânico, a empatia robótica.

Mas por dentro não há nada. Não sinto, este vazio deixa-me sonâmbula, dormente. Sempre esta incessante procura por mais, pelo tudo!

E quando penso que encontro volto a cair neste vórtex do nada. Arrasta tudo para ele. Perco tudo em mim. A conquista do nada é aquilo que tenho para mostrar.

Nem sei porque choro, já nem sinto a tristeza. Talvez seja pelo desespero gritante do nada.

E vou caminhando pelas sombras, perdida, sozinha, abandonada. E as sombras falam comigo, ouço e tento não escutar. Mas não consigo. Elas puxam-me. Elas dizem para parar de lutar contra o falhanço que é tentar sair do vazio.

Não te iludas – suspiram elas.

Agora dorme… O amanhã será mais um dia de vácuo, horas inóquas, palavras indiferentes, sorrisos mecânicos e a tua alma presa do outro lado – deste lado – no ciclo vicioso do vazio.

A doença que é amar-te.

Só passou um dia mas parece que voou toda uma eternidade.

Já não te disse olá quando acordei.

Continuas a surgir no meu pensamento enquanto as horas se arrastam pela sala vazia, não te consigo ver mas ainda te consigo sentir.

Há um vazio mudo nas palavras.

Arrasto-me pelo silencio da mágoa. A única coisa que ficou. Mágoa, solidão, medo, saudade, amor. Tudo o que resta mas não chega, tudo o que dói mas não parte. Permanecem para me recordar o quanto fazes falta, mesmo não estando.

Que raio de merda é esta a paixão?

Ouço-te dizeres-me num sussurro que me amas, a medo, porque sabes que estamos condenados ao nada. E eu também o sei. Sempre soube. Mas dizes na mesma e o amor cai como uma pedra no nosso coração. Destruidor. Totalmente o oposto daquilo que achamos que o amor é: destrói, amarra, magoa, fere, rasga, ensurdece, amarga, distancia, endurece, quebra, queima.

E se 24 horas sem ti pareceram uma vida…

Tinhas de aparecer e levar tudo de mim contigo. Arrancaste-me a alma e agora não consigo mais amar. Não consigo pensar no nunca ou no sempre.

Quero arrancar esta doença do meu peito.

Quero apagar a tua presença do meu corpo.

Quero tapar o vazio da tua ausência.

Não. Quero sair da impossibilidade.

Pára de respirar no meu ombro e de me beijar o pescoço, não aguento mais continuar a saber que ainda me amas e que ainda te amo. Este amor doente, decadente, moribundo.

Sem espaço, sem tempo nem circunstância.

Condenado à morte desde o primeiro eterno segundo.

Deixou-nos a sentença da saudade e da distância.

 

A surdina dos dias intermináveis

Sem ti o meu coração esvazia. Apenas se escuta um murmúrio. As horas passam lentas e vagarosas e a tristeza assombra-me, como a escuridão numa casa vazia. Eu já nada sinto e sem ti já nada tenho.

E imagino dias assim a desdobrarem-se até ao infinito. Talvez lá mais à frente a tristeza já esteja também distante. Mas isso é depois, não é agora. Agora estou endurecida pela mágoa, pela quietude inquieta da distancia, o medo que paralisa, o silêncio que fere, as palavras que rasgam, as lágrimas que caem, o vazio que sufoca, a ilusão que medra e molesta. A ilusão não existe, mas a sua presença é tão real, demasiado até, porque corta e dilacera e faz questão de rir na minha cara, me mostra o quão surreal é este querer.

E eu páro, deixo de sentir, deixo de querer, deixo de ser, torno-me passageira no comboio da indiferença que me leva a alta velocidade para o nada. Cada vez mais sei que o nada é o destino final.

O nada dói. O nunca dói.

Amar-te arrasta-me para as profundezas de um impossível.

 

 

Até amanhã.

Ela acorda de manhã sempre com a sensação de que lhe falta algo. Ela sabe o que é mas não diz, nem a si mesma, pelo menos tenta. Porque dói quando o nome dele soa na sua pele. Ela olha o telemóvel e aperta a mão contra os lençóis. “Não faças isso!” – pensa para si mesma. É inconsciente, ela procura-o sempre, todas as manhãs. Mas ele já não está, ou nunca esteve, já não sabe bem. Mas o esforço para contrariar esse impulso, é muito consciente, talvez demasiado. Todas as manhãs ela contorce-se e deixa o seu coração sentir saudade.

Levanta-se. Todo o peso de um dia que ainda nem começou já faz a sua alma sentir-se curvada.

Endireita-se. “Não sinto a tua falta.” – pensa para si mesma – “Não posso”.

Olha-se ao espelho e sorri a si mesma. Sente o vazio do silêncio, lava a cara. Sorri, mas nada sente.

Quando veste o soutien e puxa a alça para o ombro lembra-se de como ele passava os dedos por baixo da alça e fazia o gesto inverso. E enquanto a alça descaía ela conseguia ouvir a respiração dele à medida que ele se aproximava para lhe beijar o ombro.

Solta um suspiro em modo de gemido.

Ela sente falta. Era ele. Era ele que lhe fazia falta. Todas as manhãs, todas as noites.

E olha para o telemóvel, e não pode, não pode dizer-lhe. Então diz a si mesma: “preciso de ti”. Mas ele não responde, claro que não, ela sabe disso e mesmo assim ela espera uma resposta que não chegará.

Nunca amou nenhum homem assim. Como se cada inspiração fosse a última, magoava-a demais, mas tinha de o amar. Não tinha como não o sentir. Não tinha como não o querer. Era ele quem lhe fazia falta.

E sai de casa, entra no carro, liga o rádio do carro e tenta baixar o volume do coração.

Durante o dia tenta esquecê-lo. Quando chega à noite atira tudo para o chão, despe-se, desliga o filtro, e atira-se para a cama em silêncio. Liga a música e tinha logo de ser aquela, que a faz pensar nele. Permite a si mesma sentir um pouco mais a sua falta.

A sua respiração torna-se pesada, triste. E aquele vazio avassalador arrasta-a.

Antes de adormecer recorda-se de quando ele a beijava e lhe dizia olhando nos olhos que amava.

Uma lágrima rompe o silêncio e ela sente a sua falta. Até adormecer, e já não sentir mais nada.

Até amanhã.

 

Esperança fingida

Esperança fingida.
Espreitas pela escuridão como um pequeno rasgo de luz num negro céu infinito. E eu teimo em não te querer ver.
Esperança fingida.
Existes para me iludir, contas a história que quero ouvir, com as palavras que quero dizer e dizes-me que o coração não mente.
Não mente? Mentes-me tu, esperança fingida, queres fazer-me acreditar em ti e ganhar forças na minha ingenuidade.
Vais me dar a mão até quando? E deixas-me cair no vazio da ilusão desamparada! Esperança fingida, que fazes tu aqui outravez?
Já não te tinha dito para não voltares! E chegas com as tuas palavras sibilantes que me seduzem a alma. Porque quero tanto acreditar, mas o abismo puxa-me e não consigo!
E continuo a cair! E até quando?
Estendes-me a falsa rede de segurança, feita de linhas de papel trémulas, vazias, transparentes.
Dilacerante esperança fingida!

 

Já não sei se é real

Já não sei se é real.
Já não sei o que é real e o que não é. De alguma maneira fui perdendo as peças no entretanto. Estarei a alimentar uma ilusão?
Será isto verdadeiramente?
De repente acordo de um rush de sensações e caio dormente. Não te consigo ouvir. Não te consigo ver. Estou a tentar.
Em nome de quê?
Quase nem te consigo sentir.
Não te consigo tocar.
Está a acontecer.
A reconversão das sensações a memórias.
Neste momento.
O meu cérebro está a quebrar cada pedaço teu e a transformar-te numa imagem. Sem som, sem cheiro.
Estou submergida num mar ensurdecedor de silêncio de emoções. Já nem sinto o teu coração bater.
Estás à margem da distância.
E fica tudo por responder.
Não consigo respirar. Eu, tu e nada.
Já não fomos.
Já não seremos.