Até amanhã.

Ela acorda de manhã sempre com a sensação de que lhe falta algo. Ela sabe o que é mas não diz, nem a si mesma, pelo menos tenta. Porque dói quando o nome dele soa na sua pele. Ela olha o telemóvel e aperta a mão contra os lençóis. “Não faças isso!” – pensa para si mesma. É inconsciente, ela procura-o sempre, todas as manhãs. Mas ele já não está, ou nunca esteve, já não sabe bem. Mas o esforço para contrariar esse impulso, é muito consciente, talvez demasiado. Todas as manhãs ela contorce-se e deixa o seu coração sentir saudade.

Levanta-se. Todo o peso de um dia que ainda nem começou já faz a sua alma sentir-se curvada.

Endireita-se. “Não sinto a tua falta.” – pensa para si mesma – “Não posso”.

Olha-se ao espelho e sorri a si mesma. Sente o vazio do silêncio, lava a cara. Sorri, mas nada sente.

Quando veste o soutien e puxa a alça para o ombro lembra-se de como ele passava os dedos por baixo da alça e fazia o gesto inverso. E enquanto a alça descaía ela conseguia ouvir a respiração dele à medida que ele se aproximava para lhe beijar o ombro.

Solta um suspiro em modo de gemido.

Ela sente falta. Era ele. Era ele que lhe fazia falta. Todas as manhãs, todas as noites.

E olha para o telemóvel, e não pode, não pode dizer-lhe. Então diz a si mesma: “preciso de ti”. Mas ele não responde, claro que não, ela sabe disso e mesmo assim ela espera uma resposta que não chegará.

Nunca amou nenhum homem assim. Como se cada inspiração fosse a última, magoava-a demais, mas tinha de o amar. Não tinha como não o sentir. Não tinha como não o querer. Era ele quem lhe fazia falta.

E sai de casa, entra no carro, liga o rádio do carro e tenta baixar o volume do coração.

Durante o dia tenta esquecê-lo. Quando chega à noite atira tudo para o chão, despe-se, desliga o filtro, e atira-se para a cama em silêncio. Liga a música e tinha logo de ser aquela, que a faz pensar nele. Permite a si mesma sentir um pouco mais a sua falta.

A sua respiração torna-se pesada, triste. E aquele vazio avassalador arrasta-a.

Antes de adormecer recorda-se de quando ele a beijava e lhe dizia olhando nos olhos que amava.

Uma lágrima rompe o silêncio e ela sente a sua falta. Até adormecer, e já não sentir mais nada.

Até amanhã.

 

Esperança fingida

Esperança fingida.
Espreitas pela escuridão como um pequeno rasgo de luz num negro céu infinito. E eu teimo em não te querer ver.
Esperança fingida.
Existes para me iludir, contas a história que quero ouvir, com as palavras que quero dizer e dizes-me que o coração não mente.
Não mente? Mentes-me tu, esperança fingida, queres fazer-me acreditar em ti e ganhar forças na minha ingenuidade.
Vais me dar a mão até quando? E deixas-me cair no vazio da ilusão desamparada! Esperança fingida, que fazes tu aqui outravez?
Já não te tinha dito para não voltares! E chegas com as tuas palavras sibilantes que me seduzem a alma. Porque quero tanto acreditar, mas o abismo puxa-me e não consigo!
E continuo a cair! E até quando?
Estendes-me a falsa rede de segurança, feita de linhas de papel trémulas, vazias, transparentes.
Dilacerante esperança fingida!

 

Já não sei se é real

Já não sei se é real.
Já não sei o que é real e o que não é. De alguma maneira fui perdendo as peças no entretanto. Estarei a alimentar uma ilusão?
Será isto verdadeiramente?
De repente acordo de um rush de sensações e caio dormente. Não te consigo ouvir. Não te consigo ver. Estou a tentar.
Em nome de quê?
Quase nem te consigo sentir.
Não te consigo tocar.
Está a acontecer.
A reconversão das sensações a memórias.
Neste momento.
O meu cérebro está a quebrar cada pedaço teu e a transformar-te numa imagem. Sem som, sem cheiro.
Estou submergida num mar ensurdecedor de silêncio de emoções. Já nem sinto o teu coração bater.
Estás à margem da distância.
E fica tudo por responder.
Não consigo respirar. Eu, tu e nada.
Já não fomos.
Já não seremos.

 

A casa está fria.

In obscuro libertas praevalet by LaCrisi

A casa está fria,
A porta aberta.
Mas eu não consigo sair.
Não quero sentir isto mas não consigo evitar. O meu coração está em guerra aberta com a razão.
Não, não quero pensar mais, não quero sentir mais. Esta inconstância rasga-me por dentro! Sinto a frieza à qual já não sou indiferente.
Sinto as minhas emoções a puxar-me para um lugar tão escuro que nem consigo perceber ao certo se ele existe mesmo.
Senso de normalidade desgastada, de paz invertida, indiferença dilacerante.
Indiferença dilacerante.
E tudo o que surge exacerba a podridão. E tudo o que se esconde potencia o negrume.
Eu não sou mais quem sou.
E as amarras cortam-se com a ponta fina da navalha, demora o seu tempo e dói que se farta! E ouço os gritos estridentes de dor, mas sou a única. Mais ninguém ouve, mais ninguém compreende.
Este silêncio ensurdecedor.
Mais ninguém sabe.

Acabou o vinho.

Through Glass by ARHCdesign

 

Olho para o copo vazio e é assim que me sinto.
Vazia sem ti. Incompleta.
Quando penso em ti, a todo o momento, surges no meu pensamento. Roubas-me a sanidade. Esta coisa que sinto, já nem consigo arranjar palavras que expressem aquilo que, neste momento, sinto quando penso em ti. É um misto de tantas emoções e sensações. Dor, mágoa, angústia, medo, paixão, doçura, alegria, admiração, carinho, amor. Tu, qual ladrão, que me roubas a alma! Sinto-me perdida a deambular até ao momento que, de repente, basta uma palavra tua para me sentir completa! Mas tu! Não dizes aquilo que quero ouvir e não tenho a certeza que queres dizer! Lá no fundo acredito que sim, mas parece que tudo não passa da minha imaginação quando pontualmente me jogas um balde de água fria de realidade! És sempre esta incógnita que não consigo perceber…porque ao mesmo tempo que já senti que me amavas e serias capaz de atravessar desertos de inseguranças para me amares, também sinto um fosso de distância entre nós do tamanho de um oceano. Quem és tu? Que sou eu? Quem fomos nós? O que somos nós? Não consigo sacudir estas dúvidas, interrogações, estes se’s e estes mas! Mas também não consigo viver sem saber que pelo menos uma pequena fracção de ti se cruza com uma pequena fracção de mim, neste infinito universo. Porque apesar da dor que sinto TU fazes-me falta. Fazes-me tanta falta.

Não sei.

Não sei. Às vezes simplesmente sinto-me ausente, fora de mim mesma. E procuro algo que me faça sentir… Sentir qualquer coisa. Um arrepio, medo, emoção, desejo, carinho, atenção. Qualquer coisa. E ao mesmo tempo não sei. Não sei o que sinto, só que não sinto, dormente. Nem sequer um formigueiro. Nem quando estou com alguém que expressa desejo por mim e me toca ou me beija, eu deixo na esperança de sentir algo. Nada. Nem um frio pela espinha, nem um ardor de desejo, nem um resquício de paixão, nem uma gota de remorsos, nem o húmido do seu beijo. Mas que raio! O que é isto? Não percebo esta falta que sinto constante, um vazio por preencher. E tento, muitas vezes das piores maneiras, sentir nem que seja dor, mas a única coisa que sinto é falta, é vazio. Como é possível sentir totalmente nada? Não sei.

Orçamento Emocional

Late Goodbye by =WojciechDziadosz

Não me consigo habituar às despedidas.
O ser humano tem aquela capacidade formidável formar um hábito ou um padrão de acontecimentos repetitivos. As primeiras vezes que acontecem são mais estranhas, difíceis  complicadas mas à medida que o cenário se repete vamos construindo e automatizando a nossa resposta modificando a excepção que passa a ser a regra. Mas não no que toca às despedidas. As despedidas para mim são o oposto e tornam-se exponencialmente mais difíceis.

A primeira vez que me despedi de uma grande amiga que ia sair do país porque não encontrava em Portugal uma oportunidade de crescer fiquei triste mas ao mesmo tempo estava feliz por ela, é claro. Dessa vez foi diferente, porque a sensação de felicidade,orgulho e positivismo se sobrepôs à tristeza de perder a presença habitual dessa pessoa na minha vida. A tecnologia contorna muitos problemas mas não resolve o essencial,o contacto e partilha directos.
E depois aconteceu outra vez e desta vez não era já para ali para Inglaterra, desta vez estava a “perder” uma parte essencial da minha vida para um fuso horário com 8 horas de diferença. E desta vez foi diferente, foi mais doloroso. Porque desta vez para além de tristeza senti revolta. Revolta com a actual conjuntura. Porque uma coisa é afectar o ordenado, o emprego, aquilo que já não podemos comprar, aquilo que já não podemos fazer, enfim, tudo isso é adaptável – se é que se pode colocar nesses termos – mas outra coisa, muito mais profunda para mim, é deliberadamente afectar as relações. Perder pessoas que nos são queridas para a crise é uma realidade que nunca tinha enfrentado ou sequer equacionado. A crise que interfere com as nossas relações. Já não basta a crise económica e a crise de valores que enfrentamos… Tenho de aprender a lidar e a fazer coping com esta crise emocional. E então esta despedida e as seguintes foram muito mais dolorosas. Saber que estas pessoas se vêm obrigadas a sair do país, afastarem-se do seu lugar, das suas pessoas por sentirem que não têm outra escolha,por sentirem que não têm outro futuro. Que esgotaram as suas possibilidades. Têm de sacrificar o seu orçamento emocional em prol de uma outra perspectiva. E tenho orgulho e admiração por o fazerem, porque é preciso ser-se determinado e corajoso para sair do conforto e tentar sem saber se vai conseguir. Não me interpretem mal enquanto a isso.
Mas esse sentimento de revolta potencia a tristeza que sinto a cada despedida. Sei que a razão está correta mas os motivos são errados e injustos.

É injusto termos de abdicar das nossas pessoas, das nossas relações porque não temos outra saída. Porque nos sentimos encurralados.
E a cada despedida é pior. E por mais que experiencie não me consigo habituar. Não as consigo transformar em regra. Não consigo leva-las com mais leveza. Não consigo não chorar. Não consigo não deixar de sentir esta dor, esta contracção do orçamento emocional.